27/12/05

O Código Dá Vinte

Eram exactamente vinte horas quando ela entrou no meu gabinete como se fosse um TGV Lisboa – Porto.
Ela apanhou-me completamente desprevenido, nem tive tempo de acabar o que estava a fazer, de qualquer das formas achei melhor puxar as minhas calças para cima.
A estonteante mulher estava visivelmente assustada, pedi-lhe para que tivesse calma e para que tentasse respirar pausadamente, isso fez com que a minha atenção se centrasse nos seus voluptuosos seios, parecia que eles queriam sair para fora da extremamente justa blusa… fiquei logo com a impressão de já ter visto aquele par de perfeição em algum lugar.
Quando ela se sentou e cruzou as pernas, constatei que para além de uma linda mini-saia, ela tinha também umas pernas que me eram claramente familiares, definitivamente eu já tinha visto aquele corpo antes, mas onde… onde?
A resposta bateu-me na cabeça como um taco de basebol: ela era Martina Del Swartzcoff, vinte anos de idade e a única mulher a ser eleita dois anos seguidos como Miss Outubro… Meu Deus, como me lembro bem daqueles meses.
As duas semanas consecutivas a trabalhar como detective privado granjearam-me o know-how essencial para chegar à conclusão que diante dos meus olhos estava uma mulher em apuros.
Ela tirou da bolsa um cigarro, quando o dito roçou aquelas duas almofadas de seda, que eram os seus lábios, já eu estava com o fósforo aceso e pronto para lhe dar lume… ao cigarro.
Pedi para que ela me contasse o que se passava e sentei-me em cima da secretária para melhor a ouvir, e também porque daquele ângulo superior eu tinha uma visão privilegiada da razão… das duas razões porque Martina havia sido eleita Miss Outubro.
Foi por entre algumas passas que ela me assegurou estar a ser perseguida, isso porque ela sabia de um segredo… um segredo terrível.
Levantei-me e passei por trás dela, isto sem qualquer intenção de apreciar o seu esplendoroso traseiro (continuava lindo), assim que me aproximei da janela alguma coisa fez com o vidro se partisse.
Martina assustou-se e imediatamente correu para os meus braços, eu nem queria acreditar, a Miss Outubro estava nos meus braços… e desta vez em carne e osso.
Fosse eu um reles verme e tinha-me aproveitado sem dúvida daquele angelical ser, mas como poderia eu ter a ousadia de me aproveitar de uma pessoa assim tão bela e incrivelmente excitante?
Ainda por cima uma pessoa, que mesmo sem o saber, já tinha sido a fonte inspiradora de tantos e tão deliciosos momentos de prazer… não, eu seria incapaz de descer tão baixo.
Martina, ainda recolhida nos meus braços protectores, implorou para passar aquela noite em minha casa.
A doce criatura estava verdadeiramente assustada com tudo aquilo.
Acalmei-a dizendo-lhe que o vidro da janela poderia ter-se partido por causa de um pombo mais distraído, ou então teria sido um miúdo na brincadeira… um miúdo com a pontaria e força necessárias para partir o vidro de uma janela de um gabinete situado no vigésimo andar.
Acima de tudo assegurei-lhe que a bala encontrada no chão, perto do vidro partido, não significava, nem provava, absolutamente nada.
Martina ficou mais tranquila.
Claro, para ser sincero, eu bem que gostaria de a ter levado para casa comigo naquela noite, mas infelizmente a minha cabra é muito ciumenta, por isso resolvi chamar um táxi que a levasse a casa.
Quando ela entrou no carro pedi-lhe que voltasse no dia seguinte, ainda haviam muitas coisas por esclarecer, entretanto, e para que ela se sentisse mais segura, eu garanti-lhe que nada de mau lhe iria acontecer até lá.
Martina Del Swartzcoff foi assassinada!
Soube dessa tragédia no dia seguinte, depois de tirar à força, o jornal da boca da Maria, a minha cabra de estimação.
Fiquei perplexo com a notícia escancarada na primeira página: “Coelhinha Assassinada! Martina Del Swartzcoff, eleita duas vezes Miss Outubro, foi ontem à noite assassinada com vinte tiros. Martina deslocava-se num táxi a caminho de casa quando subitamente, de dentro de um carro que a perseguia, alguém começou a disparar…”.
Pobre miúda, tão nova… enquanto lia, na minha cabeça começaram a ser formadas algumas perguntas que me inquietavam: quem teria feito aquilo, estaria Martina realmente a ser perseguida, qual o segredo que ela guardava e, talvez a dúvida que mais me preocupava, quem é que me iria pagar os vinte euros que Martina me ficou a dever pela consulta?
Peguei na minha gabardina e meti-me a caminho do lugar onde eu achava que iria encontrar algumas respostas: a Mansão Playboy.
Não foi difícil entrar, estes tipos adoram qualquer tipo de publicidade, principalmente a gratuita, por isso inventei um estranhíssimo sotaque irlandês e disse chamar-me Jack McCormack, jornalista em ascensão da revista “M'n'M’s”.
Mandaram-me sentar e esperar que me chamassem, por sorte o “Patrão” estava na Mansão e iria receber-me.
Enquanto eu esperava aproximaram-se de mim duas… deusas, palavras não fazem justiça suficiente à estonteante beleza de ambas, apenas posso garantir que se elas não fossem de raças diferentes seriam gémeas.
As duas estavam vestidas com uma espécie de uniforme lá do sítio: jeans extra-justos e top preto com o logótipo da Playboy estampado a dourado.
Assim que a mulata olhou para mim eu soube imediatamente que algo mágico iria acontecer ali, levantei-me, contudo ela fez sinal para eu permanecer sentado, obedeci.
Ela virou-me as costas e fez mais um sinal, desta vez destinado à amiga ruiva que se aproximou.
As duas ficaram cara a cara, literalmente.
A ruiva passou o rosto pelos cabelos ondulados da amiga, eu nem pestanejava.
Subitamente a mulata deu meia volta e ficou de costas voltadas para a amiga, eu continuava sem pestanejar.
A “coelhinha” ruiva começou a deslizar as mãos pela cintura da colega enquanto lhe beijava o pescoço, a mulata invadida pelo prazer mordeu os lábios, eu pestanejei, naquela fracção de segundo, já a mulata estava novamente virada para a ruiva, elas beijaram-se.
Aquilo era como se eu estivesse a ver o Canal Playboy, com a vantagem de eu estar lá… não resisti à tentação, levantei-me.
Assim que me aproximei delas, cada uma agarrou-me num braço e levaram-me; mesmo sem saber para onde ia pus o mais estúpido sorriso que alguma vez tinha usado.
Entrámos numa sala e o meu sorriso foi à vida, diante dos meus olhos estava, nem mais nem menos, que o “Imperador” em pessoa: Hugh Hefner, fundador do império Playboy.
Fiz as minhas contas: eu, duas miúdas e um velho pervertido… disse imediatamente que não alinhava em cenas maradas.
Hefner soltou uma sonora gargalhada e convidou-me a sentar; enquanto eu me sentava reparei que naquela sala, para além da secretária onde Hefner estava sentado, as paredes estavam cheias de fotografias, quase em tamanho real, das mais famosas “playmates”, no entanto não vi nenhuma fotografia da Martina, logo ela que tinha sido a única a ser eleita duas vezes seguidas Miss Outubro…porque teria sido ela excluída?
A rapariga mulata e a amiga ruiva colocaram-se ao lado do velho Hefner, que continuava a falar como um papagaio sobre a história daquela empresa; talvez tenha sido impressão minha, ou então estaria ainda meio atordoado por causa do espectáculo das miúdas, mas pareceu-me que os dentes incisivos superiores de Hefner eram anormalmente grandes… quase como dentes de coelho.
Passados poucos minutos a porta da sala abriu-se, entraram dois tipos enormes, parecidos com lutadores de luta-livre, cheguei à conclusão que eles eram funcionários porque estavam vestidos exactamente da mesma maneira que as miúdas… isso deixou-me preocupado.
Ainda mais preocupado fiquei quando um deles sussurrou qualquer coisa no ouvido de Hefner… algo me dizia que eu estava em apuros.
Com um simples estalar de dedos Hefner mandou as miúdas sair da sala, não tive dúvidas, o meu disfarce tinha sido descoberto.
Levantei-me e tentei sair de fininho mas isso não passou mesmo de uma tentativa, os dois tipos enormes, ainda que ridiculamente vestidos, eram bem mais fortes que eu, por isso voltei a sentar-me quando eles se puseram ao meu lado.
O velho Hefner levantou-se e veio ter comigo, perguntou-me porque é que eu tinha mentido dizendo que era um jornalista, pensei rápido e respondi que aquela foi a única forma que eu encontrei de falar com ele por causa da Martina, Hefner ficou branco, era óbvio que aquele não era um tema bem vindo.
Hefner queria saber se Martina me tinha falado no Código, aliviei a tensão dizendo que eu apenas pretendia receber os vinte euros que ela me tinha ficado a dever, Hefner deu uma gargalhada.
Ele engoliu a história, pagou-me e eu saí dali para fora mesmo a tempo, ou não fosse o meu nome Justin Time.
Cheguei a casa e fui tomar um duche.
Qualquer pessoa de bom-senso iria esquecer o que se tinha passado mas não eu, achei que deveria fazer alguma coisa, qualquer coisa, era mais que evidente que Hefner estava envolvido na morte da Martina, sem dúvida ela sabia demais e foi preciso silenciá-la... mas que raio seria o Código?
Felizmente tenho uma boa memória, recordei todos os passos que dei até então e cheguei à seguinte conclusão: o Código dá Vinte.
Talvez para algumas pessoas os factos que vou descriminar não passem de simples coincidências, mas para mim eles são a prova irrefutável que o Código dá Vinte.
Eis as provas:

Martina entrou no meu gabinete às VINTE horas.
O nome Martina Del Swartzcoff tem exactamente VINTE letras.
Martina tinha VINTE anos.
Martina foi eleita Miss Outubro (mês 10), duas vezes seguidas, logo 10+10=VINTE.
O meu gabinete fica no VIGÉSIMO andar.
Martina foi assassinada com VINTE tiros.
Martina ficou a dever-me VINTE euros.
O nome Hugh Hefner tem 10 letras, 10 letras x 2 nomes = VINTE.
Hefner nasceu em 9/4/1926, significa que 26 - 19 (ano) = 7 ... 7 + 9 (dia) = 16 ... 16 + 4 (mês) = VINTE.

Mas o que significa o Vinte, e que relação tem Hefner com esse número?
Fiz mais algumas pesquisas por minha conta, que incluíram a compra massiva de revistas Playboy, e mais uma vez o resultado final foi surpreendente.
Hugh Hefner nasceu em Chigaco, Illinois, essa constatação é do conhecimento público, o que poucas pessoas sabem é que ele descende directamente dos primeiros nativos que habitaram aquela região, os Potawatomis.
Um ramo familiar dessa tribo, aquele a que Hefner pertence, nasceu com graves deformações físicas: orelhas enormes, corpo inteiro coberto de pêlo, dentes incisivos superiores gigantescos; foi-lhes dado o nome de Plabo (este nome viria a dar origem à palavra Playboy), que significa no dialecto dos Potawatomis “homem-coelho”.
Ao longo de gerações os Plabo foram votados ao ostracismo pelos outros ramos familiares descendentes dos Potawatomis, foram inclusivamente expulsos daquela região, mudando-se mais para Norte.
Vingança mortal foi jurada.
Existem hoje em dia milhões de Plabo’s espalhados pelo Mundo, a sua existência é contudo difícil de provar, uma vez que eles vivem escondidos da sociedade, ou então, aqueles que realmente são visíveis sujeitaram-se a grandes intervenções cirúrgicas para conseguirem passar por pessoas ditas “normais”, Hugh Hefner é um deles.
Ele é inclusivamente o Alto Comandante da PSIHC – Plabo, Sociedade Independente de Homens-Coelho – durante anos Hefner usou e continua a usar a sua revista Playboy para fazer passar mensagens ocultas através dela, o que para o comum dos mortais são simples mas belas fotografias de mulheres nuas, para os Plabo’s são orientações militares com vista ao ataque… e é aqui que entra finalmente o Vinte.
O ataque final dos Plabo’s, aquele que vai dizimar a população mundial por completo, já tem data marcada, será no ano 2020.
Em conclusão lanço um apelo, um apelo ao Mundo, ninguém está excluído: temos de impedir que as loucas intenções dos Plabo’s se tornem em realidade.
O que sugiro é uma coisa difícil de concretizar, aliás, muitíssimo difícil, mas é a nossa única hipótese: vamos eliminar a forma de contacto entre os Plabo’s, para isso o sacrifício supremo tem de ser activado: temos de deixar de comprar revistas Playboy, bem sei o sofrimento e dor que isso implica mas tem de ser, a salvação do Mundo está nas nossas mãos.

Fim

nota para mim mesmo: se esta treta não vender com gajas nuas, pensar numa alternativa, talvez substituir as fotografias por quadros de pintores famosos como Picasso… ou melhor, como Da Vinci, o título até podia ser “O Código Da Vinci”… talvez meter a Igreja no meio. É esticar muito a corda mas pode ser que alguém engula isso…

D.Brown

FIM

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