09/11/10

O Vento


Margarida pegou delicadamente no frasco do seu perfume predilecto e deixou cair duas gotas desse perfume, em cima de uma folha de papel, onde ela acabara de escrever um poema de amor, que seria entregue... ao destino.

A extrema timidez e insegurança, fizeram de Margarida uma mulher sentimentalmente só.
“Resta-me sonhar” – costumava dizer ela às amigas, já quase todas casadas e com filhos.
Seguindo um ritual que criara há algumas semanas, Margarida atirou a folha perfumada pela janela do seu quarto, ficando depois a olhar para ela, até a perder de vista.
Secretamente, Margarida tem esperança que o vento se encarregue de levar aquelas palavras de amor, até às mãos do seu príncipe encantado.

Não muito distante dali, Miguel olhou uma última vez, para a fria carta de despedimento, depois dirigiu a sombria tristeza para a forte corrente do rio, que passava por baixo daquela velha ponte.
Precisamente no momento em que Miguel ia desistir de tudo, um capricho do vento, ou talvez do destino, fez com que a folha escrita por Margarida, fosse aterrar junto dos pés de Miguel.
O doce aroma emanado por aquele pequeno papel, fez com que Miguel pegasse nele.

As palavras repletas de encantamento, derramadas por Margarida naquele pedaço de esperança, tocaram profundamente o coração de Miguel.
Pouco tempo depois, o jovem homem virou costas ao terrível propósito que o tinha arrastado até àquele inóspito local e agarrando-se à folha, como se de uma bóia de salvamento se tratasse, jurou que iria tentar encontrar o autor daqueles versos, pois foram eles que lhe salvaram a vida.

Miguel apostou na sorte... talvez se caminhasse contra a direcção do vento encontrasse alguma espécie de pista, pensou ele.
Irónico, o mesmo vento que lhe trouxe esperança, transformou-se naquele momento, num obstáculo.
A busca de Miguel resultou infrutífera. Contudo, ele não estava disposto a ceder facilmente.
Nos dias que se seguiram ele retornou à velha ponte, esperando que o vento voltasse a trazer nas suas marés, novos pedaços de ilusão.

Numa dessas ocasiões, Miguel avistou uma criança a brincar com um barco de papel, junto à margem do rio.
Os pais da criança, sentados na relva, conversavam distraidamente quando o barco do filho se afastou. O miúdo correu para tentar agarrá-lo, desequilibrou-se e caiu no rio.
Miguel lançou-se imediatamente à água, salvando o rapaz, que entretanto conseguira agarrar o barco de papel.
O pai da criança, muito aflito, agradeceu a Miguel o gesto heróico e deu-lhe um cartão de apresentação, dizendo depois que caso Miguel precisasse algum dia, de alguma coisa, para o contactar.
Quando Miguel se despediu do miúdo, este sorriu e deu-lhe o barco de papel.
Já sozinho, Miguel olhou com curiosidade para o tosco barco e notou que nele estavam escritas palavras... palavras que lhe pareceram familiares.
Miguel não teve dúvidas, aquele era mais um dos poemas escritos pela pessoa que ele procurava. Seria aquilo um sinal?

Inesperadamente, uma sorrateira rajada de vento roubou-lhe o papel das mãos.
Miguel correu atrás da pequena folha e nessa altura cruzou-se com uma pessoa .... uma mulher!
O perfume dela fez com que Miguel parasse de correr... aquele cheiro também lhe era familiar.
Durante alguns instantes, Miguel ficou na dúvida entre tentar conversar com aquela mulher que caminhava cabisbaixa, ou continuar a seguir o poema.
Miguel optou pela segunda hipótese.

O tempo, curador de males e insensível na mesma dose, foi passando... decorreram duas semanas desde aquele episódio.
Durante esses dias, Miguel não encontrou uma palavra que fosse de Margarida.
Ele achou que estava na hora de seguir em frente com a vida, encheu os pulmões de coragem e marcou uma reunião com o Dr. Aguiar, o pai do miúdo que ele tinha salvo de se afogar... um novo emprego, era agora o objectivo de Miguel.

Na reunião, Dr. Aguiar disse que Miguel estava com sorte pois tinha surgido recentemente uma inesperada vaga na empresa.
Miguel ficou encantado com a notícia.
Amavelmente, Dr. Aguiar levou Miguel a conhecer o gabinete que ficara disponível.
Assim que lá entrou, Miguel sentiu no ar uma fragrância conhecida... era a mesma emanada pelas folhas escritas por Margarida ... intrigado, Miguel perguntou o que tinha acontecido à pessoa que deixara de trabalhar ali.
Dr. Aguiar “fechou a cara”, com uma voz pesarosa, contou que essa pessoa tinha tido um final trágico... suicidara-se, atirando-se de uma ponte... precisamente no dia, e no local, onde o Dr. Aguiar e Miguel se tinham conhecido.

Uma lança afiada, pareceu trespassar o coração de Miguel naquele momento! Ele ficou pálido e teve de se sentar.
A sua memória foi iluminada por relâmpagos de imagens... imagens difusas da mulher que ele tinha visto a dirigir-se para a ponte naquele dia.
Alarmado com o estado de Miguel, o Dr. Aguiar apressou-se a ir buscar um copo com água.
Miguel não esperou ... movido por uma inesperada e incontrolável força levantou-se, saiu daquele lugar a correr e só parou em cima da velha ponte.
A vida tem coisas curiosas, o mesmo local pode significar o começo ou o fim, a esperança ou a desistência.
Miguel ergueu o olhar para o céu, talvez tentando encontrar alguém a quem deitar as culpas.
Sorriu ironicamente, pegando depois na folha de papel, com o último poema de Margarida que havia encontrado.

Num movimento de raiva, ele tentou atirar a folha ao rio, mas o vento não o permitiu, uma estranha corrente de ar elevou a folha e fez com ela fosse “bailando” suavemente até perto de uma mulher... a mulher tinha estado a observar Miguel.
Ele olhou para ela e viu-a a pegar na folha. Ela leu o poema.
Surpreendido, Miguel viu depois essa mulher a aproximar-se dele com a folha na mão.
Em cima da ponte e parecendo que o vento os estava a unir, a mulher timidamente apresentou-se.
O nome dela era Margarida ... a autora daquele poema.






(voz de @vilmacorreia)

19/10/10

Moreninha


Encontrei-a ali...
Sempre que quer escrever, ela pega num caderno cheio de folhas de esperança, e parecendo caminhar sob as nuvens, atravessa o Bosque dos Suspiros, até chegar às margens do Riacho Doce.
Ela já fez esse percurso tantas vezes, que agora conhece cada árvore do Bosque pelo nome... isto é, o nome que ela achou, que cada árvore deveria ter.
Ela passa pelo Fábio, a Maria, o Daniel, a Julieta... a Julieta é uma árvore Mogno tão alta, mas tão alta, que quase é impossível alcançar o seu topo com os nossos olhos... mas a árvore preferida dela, é sem dúvida, o Camilo.
O Camilo é um velho Plátano que repousa nas margens do Riacho Doce... Camilo não é a árvore mais bonita do Bosque dos Suspiros, nem a mais robusta, mas é com certeza, a mais aconchegante.
Ela adora sentar-se na margem do riacho, mergulhar os pés e apoiar as suas costas no velho Camilo, enquanto escreve... foi assim que eu a encontrei, na primeira vez que a vi.
Aquilo que ela escreve é tão bonito e delicado, que quem tem a sorte de a ler, vive um pouco mais feliz.
Mas ela é modesta, e com sentido de humor, por isso ela atribui os méritos dos seus escritos aos pequenos seres vivos que habitam no Riacho Doce... sim, ela diz que são os peixes, que lhe ditam o que ela deve escrever; “Eles tocam nos meus pés em código morse, depois é fácil... quando os peixes não aparecem, é a Brisa que me sopra aos ouvidos, aquilo que devo escrever.” - costuma dizer ela, sorrindo.
Hoje, finalmente, ganhei coragem e perguntei-lhe onde vai ela buscar a inspiração, quando nem os peixes, nem a Brisa aparecem; “Fácil...” - respondeu-me ela; “Penso em ti.”.





(voz de @vilmacorreia)
(Dedicado a Rita Shultz)

13/10/10

Vida

Se um dia,
Eu deixar de fazer parte da tua vida,
Então...
Que eu seja a tua melhor recordação.
.
Recordarás a noite,
Em que as nossas mãos fizeram amor...
O sabor dos meus lábios...
A sinceridade das minhas palavras...
Recordarás a nossa alegria,
Que ainda agora,
Faz eco nas montanhas.
.
Se um dia,
Deixares de fazer parte da minha vida,
Quero que saibas...
Tu, já és,
A minha melhor recordação.
.





(voz de @vilmacorreia)

27/09/10

Apenas...

Eu não sou o teu Cavaleiro Andante.
.
Não sou o teu Romeu,
Anjo da Guarda,
Alma gémea,
Não sou o teu poeta.
.
Eu sou apenas um homem.
.
Um homem que desenha palavras,
Em pedaços de papel.
Um homem que aprendeu a sorrir,
Quando vê e ouve o sorriso da vida.
Um homem que perdeu o medo,
E não o quer de volta.
.
Como vês...
Sou apenas um homem,
O teu,
Se eu tiver essa sorte.
.

20/09/10

Des(amor)

Gritei...
Gritei adeus,
Esperando que o eco,
Devolvesse um olá teu...
Aceitá-lo-ia... mesmo sussurado.

Bebi...
Bebi para esquecer o teu rosto...
Agora,
Vejo-te na cara de toda a gente.

Por favor...
Se nos voltarmos a cruzar,
Age como se não me tivesses conhecido,
Pois foi isso que aconteceu.

13/09/10

Mais uma noite



Porque não te deitas todas as noites,
Na minha cama?
Porque tenho de te procurar,
Atrás das notas musicais?

Diz-me...
A quem ofereces o teu sorriso,
Quando não estás comigo?

Deita-te na minha cama esta noite...
As notas musicais permitem.
Os meus dedos já te sentem,
E não param de sorrir.

Bem-vinda a casa,
Querida Inspiração.

(fica mais uma noite)

06/09/10

Gota d'Amor

.
Desperdiçaste uma gota d'amor,
Com alguém que não a soube receber,
Pior...
Com alguém que não a soube ver.
.
Amordaçaste o suspiro,
Inspiraste coragem,
E...
Suspiraste corajosamente.
.
O teu bravo suspiro,
Entrou numa gota d'amor,
Que eu julgava ter perdido.
.
Aprendi assim que,
Um suspiro,
Dentro de uma gota d'amor,
Transforma-se em...
Paixão.
.
(e tu, quando irás aprender?)
.





(voz de @ritaschultz )

01/09/10

O Homem Que Caminhava Sempre Em Linha Recta


Certo dia, o homem que caminhava sempre em linha recta, foi acusado de ter feito uma curva.

- Impossível! Eu nunca me desvio do meu caminho. - protestou o homem, perante o acusador, que por sinal era uma mulher.
- Para que saiba... cara senhora... eu fui muito bem educado pelos meus pais e durante estes meus... bom, a minha idade certamente não lhes interessa, mas interessa-me dizer-lhe que durante todos estes anos, eu sempre caminhei de cabeça erguida e em linha recta. - concluíu o homem.
- Não o quis ofender... caro senhor... talvez até tenha sido apenas impressão minha, mas pareceu-me vê-lo a fazer uma ligeira curva para a direita. - disse a mulher.

Durante algum tempo, eles debateram a questão, parecendo não conseguirem atingir um consenso, por fim, a mulher disse:

- Sabe, talvez eu me tenha enganado... é possivel.
- Pois enganou-se mesmo, eu nunca me desvio! - disse o homem prontamente, enquanto recomeçava a caminhar.

O homem que caminhava sempre em linha recta, falava virado para a mulher, não vendo sequer por onde caminhava.

- Mas... - alertou a mulher.
- Nem mas, nem meio mas... eu nunca me desvio.

Mal terminou de proferir tais palavras, o homem caiu num buraco.

- Eu tentei avisar. - disse a mulher, abanando a cabeça.

Felizmente, o buraco no chão era pequeno e com a ajuda da mulher, o homem não teve dificuldades em sair.

Desde esse dia, os dois caminham juntos.
É importante caminhar sempre de cabeça erguida, em “linha recta”, mas também é importante ter a flexibilidade necessária para nos desviarmos dos buracos que vão aparecendo ao longo da vida... e se por acaso, houver alguém a ajudar, dando uma mão... então o percurso será bem melhor de fazer.

FIM
(resposta ao desafio "linha recta")

27/08/10

Ela, a Mel


Tu não sabes, mas…
À noite,
Enquanto dormes,
Eu observo-te.

Certa noite…

Certa noite,
Dei contigo a escrever,
Escrevias desalmadamente…
Como se o próprio mundo,
Corresse o risco de explodir,
Caso parasses.

Afinal,
Fizeste uma pausa,
Para afastar as lágrimas dos olhos,
E o mundo nem sequer suspirou.

Nessa mesma noite,
Flutuava uma música,
Era sobre sonhos,
Tu e os sonhos…

Se numa outra noite,
Eu voltar a ter a sorte,
De te encontrar acordada,
Serei eu a sorrir-te.
Exactamente da mesma forma,
Como tu sempre me sorris,
Enquanto durmo.

Minha doce e querida,
Melancolia.

19/08/10

Dia Mundial da Fotografia



Hoje é o Dia Mundial da Fotografia... só muito recentemente descobri o prazer que é fotografar (desde que comprei a máquina fotográfica em Janeiro de 2010), essa descoberta têm se revelado extremamente agradável e surpreendente para mim.
Estas duas fotografias são, provavelmente, as melhores que tirei até hoje.
Existem muitas definições, ou ideias, para resumir o que é fotografar... a minha é que fotografar tem a incrivel capacidade de capturar o que não existe... o tempo.
.

12/08/10

Descobrir


Encontrei-te entre as ondas do mar...
.
Foi ao descobrir-te,
Que me descobri.
.
Entreguei-te a minha verdade,
Embrulhada num presente.
.
O Tempo...
O Tempo fez o laço,
Que uniu a minha,
À tua verdade.

04/08/10

Box

Procurei-te incessantemente,
No lugar,
Onde eu próprio me escondo.
Estas quatro paredes,
São testemunhas silenciosas.
Se elas falassem...
Se elas falassem,
Contar-te-iam tudo aquilo,
Que eu,
Muito simplesmente,
Não sou capaz de contar.
(até agora...)

29/07/10

O Salto

Reza a história que eles esperaram que o mundo adormecesse e que a lua acordasse.
O ponto de encontro foi o "Penhasco Eterno".
Ele subiu para um lado e ela para o outro.
O plano deles era saltarem para os braços um do outro, na esperança que esse mesmo abraço, se tornasse eterno.
À meia-noite em ponto, eles saltaram...
Nunca ninguém soube ao certo se o plano resultou... mas uma noite destas, eu vou descobrir.

21/07/10

Sonhos

Tu não me conheces...
Eu vivo dentro de uma pauta musical,
Escrevo o que a Lua me diz,
Fotografo com os meus olhos,
Desenho o que não consigo fotografar,
E sonho...
Sonho contigo,
Apesar de também eu,
Não te conhecer.

12/07/10

Desta vez...

Talvez eu não consiga ainda, entrar nos teus sonhos.
Talvez seja dificil contar, cada fio do teu cabelo.
Talvez eu não saiba ainda, pronunciar o teu nome com os meus olhos.
Talvez eu não caminhe no teu ritmo, por enquanto.
Talvez a Lua seja demasiado pesada, para eu a levar até à tua janela.
Talvez... talvez.
Mas de uma coisa, estou certo,
Desta vez, eu vou tentar!!

(... irei?)

06/07/10

Ritual


Respirou fundo...
.
Arrancou o coração,
Deu-o ao mundo...
A dôr, conteve-a,
No mais silêncioso dos gritos.
.
Arrastou-se delicadamente pelo chão.
Olhou para dentro,
Dos seus próprios olhos...
Sorriu,
O sorriso dos tristes.
.
Escutou, no silêncio,
A voz dos Anjos.
Sentiu a pele envelhecer.
.
Voltou a respirar fundo...
.
Por fim,
Ela adormeceu...
Agarrada ao sonho.

29/06/10

A Dança


... e dançamos.
Dançamos entre as palavras não ditas,
Minhas mãos,
Apaixonaram-se pelas tuas.
Bocas coladas,
Olhos sorriam em vez delas.
Dois corpos,
Hermeticamente fechados num só.
... e dançamos.
Dançamos até a noite se ir embora.
E eu que nem sequer sabia,
Que sabia dançar.
 





( voz de @Rmmbarros )

28/06/10

Ilustração


O meu amigo @RodBispo teve a amabilidade ( e muito talento ) de fazer esta ilustração, tendo como inspiração o conto que escrevi "O Rapaz Que Queria Pintar O Céu" ... eu agradeço-lhe aqui publicamente :)

22/06/10

Rewind


Tu...
.
Tu és agora,
Uma folha arrancada,
Do livro da minha vida.
.
Levaste contigo,
As minhas melhores palavras,
Aquelas que inventei para ti.
.
O mais doloroso,
Não foi ter-te perdido,
Foi nunca ter-te tido.
.
Raios, mulher...
Porque insistes em ser feliz,
sem mim?

14/06/10

Arrependimento


Deixou cair o corpo na cama,
A fraca luz,
Oferecida pelo velho candeeiro,
Sua única companhia.
.
Fechou os olhos…
Pensou no beijo.
.
Humedeceu os lábios,
Mordiscou-os,
Procurou o sabor.
.
Tentou lembrar-se…
Queria lembrar-se…
.
Sentiu então amargura na boca…
Era o sabor das lágrimas.
.
Esse beijo…
Esse beijo nunca foi dado.
.
(resposta ao desafio: "arrependimento")