21/08/07

Era uma vez um Presidente de um clube de futebol

Era uma vez um Presidente de um clube de futebol, o nome do clube é irrelevante, mas a primeira letra do nome é um S, tem um B no fim, e um L no meio.
A fisionomia do tal Presidente também é irrelevante, mas as suas duas orelhas, visíveis a longa distancia, são o que mais se destaca.
Durante o “reinado” desse Presidente, a competência técnica dos diversos treinadores que por lá passaram revelou-se sempre irrelevante.
A equipa, em si, era do mais irrelevante possível, contudo havia lá de tudo um pouco, infelizmente para o Presidente tudo que lá havia era mau.
No meio de toda esta irrelevância, o Presidente insistia que aquele era o maior e melhor clube do Mundo, e na verdade ele estava certo, o problema era que o Presidente vivia num Mundo só dele.
Ocasionalmente a equipa, desafiando a Lei das Probabilidades, vencia um jogo.
O Presidente ficava eufórico, normalmente isso durava até ao jogo seguinte, onde a Lei das Probabilidades impunha novamente as suas leis e a equipa perdia.
Os anos foram passando, as vitórias também foram passando ao lado.
Que fim poderia ter tal clube, liderado por tal Presidente? O pior de todos: ser protagonista de historias idiotas como esta.
“Antes de ser o melhor do Mundo, convém, em primeiro lugar, ser o melhor da cidade.” – Jin Tó Nikko (filósofo luso/nipónico/escandinavo)

FIM

11/07/07

Era uma vez um mágico

Era uma vez um mágico capaz de hipnotizar quem, e o que ele quisesse.
Certa noite, durante mais um dos seus espectáculos (ler o que se segue de um só fôlego, a coisa não tem virgulas!), ele chamou uma jovem mulher ao palco convidando-a depois a sentar-se numa cadeira previamente colocada no palco por uma assistente dele com o intuito de ali ser realizada a magia (inspirar neste ponto).
O Mágico pediu silêncio à plateia, as 4 pessoas que lá estavam obedeceram.
Foi então que o Mágico pediu à jovem para cerrar os olhos e disse-lhe:”Eu sou Zorb (nome ridículo, eu sei), o Rei do Hipnotismo.” - ele repetiu esta fala três vezes.
De seguida, e num gesto só possível de ser realizado por alguém com muitos anos de prática, e uma deficiência nos braços causada por acidente de mota, Zorb estalou os dedos (dos pés) e mandou a jovem abrir os olhos.
“Olhe para mim, minha jovem, olhe profundamente para mim… isso… não resista ao meu poder… agora diga, quem sou eu?” - perguntou Zorb.
“Zorb?” - respondeu a mulher.
“Sim, mas… Zorb o…” - o Mágico fez novamente uns gestos profundamente complexos sobre a cabeça da rapariga.
“Zorb… o Rei do Hipnotismo?”

O Mágico virou-se imediatamente para a 3 pessoas (uma já tinha abandonado a sala) da plateia e agradeceu os aplausos, isto é, aplausos não houveram mas ele agradeceu na mesma.

O mais incrível desta história vem agora, quem leu isto até aqui também foi hipnotizado (!), e sempre que se ouvir a palavra “Euribor” todos irão sentir uma enorme dor de cabeça.

FIM

03/07/07

Era uma vez um pedaço de tempo

Era uma vez um pedaço de tempo, o seu nome, pelo menos aquele que ele me garantiu ser o seu nome era " ".
Com efeito, " " revelou-se um nome difícil, para não dizer impossível, de eu pronunciar, por isso eu próprio o baptizei com o nome de " ".
" ", ou melhor " ", achou o seu novo nome maravilhoso, embora me tenha dito em voz baixa que " " soava melhor.
O que é certo é que aquele pedaço de tempo me fez companhia durante... bem, durante um pedaço de tempo.
Eu nunca pensei, ou sequer imaginei, que um pedaço de tempo pudesse ser assim como o " ", para ser sincero eu nunca dei muita importância aos pedaços de tempo.
" " avisou-me então para eu me preparar para o pior.
O pior? Que quereria o pedaço de tempo dizer?
Eu ainda não tinha sequer acabado de esboçar um pensamento quando vi o que ele queria dizer; " " tinha chegado ao fim.
Adeus " ", talvez um dia ainda nos vejamos novamente.

FIM

27/06/07

Era uma vez um poema

Era uma vez um poema,
Daqueles que rimam no fim,
E isto sem qualquer esquema,
Pois um poema é mesmo assim.

Ele nasceu em Março,
Era um poema muito dado,
Gostava de um bom abraço,
E de ouvir um bom Fado.

Porém,
Um quadro negro o amor lhe pintou,
E nunca conheceu nenhuma fadista,
Em vez disso uma rapariga ele namorou,
Que em Boxe era especialista.

Coitado,
Apanhou tamanha pancadaria,
Que certa noite deixou até de rimar,
“Que se lixe” – disse ele já na escadaria,
“Eu vou-me é pirar!”.

A história desta Poema foi assim,
De bonito nada tem,
E agora que chegou ao fim,
Resta-me escrever “adeus e passem bem.”

FIM

22/06/07

Era uma vez um estúpido

Era uma vez um estúpido, este, tal como todos os estúpidos do mundo, fazia aquilo que todos eles/elas adoram fazer: coisas estúpidas.
Certa tarde, o estúpido decidiu que já tinha feito todas as coisas estúpidas para aquele dia e decidiu regressar a casa.
Ia o estúpido a cantarolar uma estúpida musica quando, no meio do caminho, surgiu um enorme pedregulho.
Era um pedregulho verdadeiramente grande, deveria ter uns 3 metros de diâmetro e pesaria, talvez, umas 2 toneladas.
O estúpido parou diante daquele “monstro”, depois de olhar a gigantesca pedra, o estúpido tentou empurrá-la com toda a força.
Nada, o pedregulho nem se mexeu.
O estúpido estava com um problema, até ele conseguiu perceber isso.
Como é que ele podia ir para casa se no meio do caminho estava uma coisa a obstruir a passagem?
O estúpido sentou-se para pensar melhor.
Cinco minutos depois ele levantou-se e começou a dar murros na pedra, acho que a ideia dele era desintegrar o objecto.
A experiência para além de infrutífera, revelou-se demasiado dolorosa, por isso o estúpido deixou de usar as mãos e começou a dar pontapés.
O resultado foi mau.
O estúpido voltou a sentar-se para pensar.
Dez minutos depois ele levantou-se, ganhou lanço e tentou saltar por cima do pedregulho de 3 metros de altura… não conseguiu, mas para ter a certeza tentou ainda mais dez vezes.
Cansado, e com enormes dores espalhadas por todo o corpo, o estúpido desistiu, para ele era obvio que a única forma de voltar a casa era escolher outro caminho.
Ele deu apenas alguns passos no sentido contrário quando passou por ele um miúdo de 8 anos, o estúpido ainda avisou o miúdo que era impossível passar por ali, no entanto o miúdo já não o ouviu uma vez que ele tinha contornado a pedra e seguido em frente.

FIM

18/06/07

Era uma vez um sonho

Era uma vez um sonho, não era um sonho particularmente grandioso, nem sequer demasiado ambicioso, era apenas um sonho.
Com o passar do tempo, o sonho tornara-se cada vez mais difícil de concretizar.
Ele foi perdendo as cores, assemelhando-se cada vez mais a um sonho desfeito.
Por vezes, quando o sonho parecia que ia finalmente começar a concretizar-se acontecia sempre qualquer coisa… qualquer coisa era o suficiente para ele se desmoralizar.
O pálido sonho parecia condenado ao esquecimento, no entanto, também bastava qualquer coisa… qualquer coisa era suficiente para o sonho acreditar que ainda era possível, que ainda havia tempo e vontade para tudo acontecer como tinha sido sonhado.
Não era um sonho particularmente grandioso, nem sequer demasiado ambicioso, era apenas um sonho… o meu sonho.

FIM

21/05/07

Era uma vez um pássaro

Era uma vez um pássaro, o seu nome era Baltazar.
O dito animal vivia feliz, Baltazar era o orgulhoso proprietário de um excelente ninho de três assoalhadas, tinha também um emprego porreiro (das 2 às 3 da tarde), e ganhava muitíssimo bem para um pássaro com as suas limitadas habilitações académicas.
Porém, desgraçadamente, tudo mudou no dia em que Baltazar recebeu, via e-mail, uma ordem de despejo.
O malvado do senhorio não perdoou ao Baltazar os 14 anos de atraso no pagamento da renda.
Para piorar o cenário, o animal voador, foi despedido do emprego, isto porque ele nunca apareceu um só dia no local de trabalho.
“Como a vida é injusta.” – pensou o Baltazar.
Depois de vários… minutos a pensar numa forma de dar a volta por cima, Baltazar teve um ideia: fundar um Partido.
Segundo o bicho, a única forma de continuar a viver bem sem fazer nenhum era tornar-se num político.
Assim foi, Baltazar fundou o P.P.S.T. (Partido dos Pássaros Sem Trabalho).
É incrível o que um simples pássaro determinado consegue fazer, em pouco tempo o número de aliados do P.P.S.T. era já de largos milhares de pássaros, todos eles estavam dispostos a lutar, e até a dar a vida, pelos ideais defendidos pelo agora Doutor Baltazar.
E quem sabe… Baltazar poderia até conseguido dominar o Mundo, poderia… isto é, se não tivesse surgido à sua frente um outro ser, milhares de vezes mais inteligente do que ele.
É… o outrora Invencível Baltazar vive agora em minha casa, numa gaiola.

FIM

14/05/07

Era uma vez um pato

Era uma vez um pato, o seu nome era Simplesmente Pato.
Simplesmente, era um pato especial, ele era tão especial que todos os outros patos queriam ser como ele.
Simple – como ele era tratado para facilitar o contacto, era um pato alto, esbelto, quase um top-model, se houvesse um termo de comparação dir-se-ia que Simple era um Deus!
Certa tarde, Simplesmente Pato decidiu ir comer fora, ele saltou o baixo muro que rodeava a fazenda e caminhou pela estrada que o levaria ao povoado vizinho.
Ali chegado, Simple, foi ao galinheiro do Pestana, o Pestana era um galo.
Os dois animais eram velhos conhecidos, tinham feito amizade na tropa.
Simplesmente Pato comeu bastante naquela tarde, porém estava na hora de regressar.
Simple despediu-se de Pestana e pôs-se a caminho de casa.
O pato estava quase a chegar, só lhe faltava saltar o pequeno muro, assim que ele saltou, ouviu-se um disparo vindo de uma espingarda.
Simplesmente tinha sido atingido numa asa, o pobre animal começou a gritar (ou algo parecido com isso), os outros patos da fazenda correram em seu auxílio, quando lá chegaram viram Simple cheio de sangue e a tossir.
Os patos olharam para o local de onde o tiro tinha sido disparado e perceberam tudo.
Quem tinha disparado o tiro tinha sido o Pestana, o galo.
Simplesmente Pato tinha comido mais do que comida naquela tarde, e o corno do galo tinha feito justiça… simplesmente isso.

FIM

04/05/07

Era uma vez uma antena parabólica

Era uma vez uma antena parabólica, ela morava há já alguns anos em cima de um telhado com telhas pretas.
Certo dia, a antena viu chegar uma carrinha desconhecida à casa, automaticamente ela entrou em choque, pois já lhe tinham chegado aos ouvidos, ou melhor, aos cabos, que actualmente existia uma nova forma de ter muitos canais de televisão; TV por cabo era o nome dessa coisa.
Efectivamente, aquela carrinha pertencia à empresa de TV por cabo local, a antena parabólica começou então a tremer… devido a esses tremeliques a emissão de TV da casa começou a ficar desfocada e sem som nenhum, os donos da casa, que até então tinham grande orgulho na antena, começaram a questionarem-se: será que a antena parabólica já estaria demasiado velha e cansada?
Assim que a antena parabólica viu os donos a apontarem para ela, começou a tremer ainda mais, tremeu tanto que os donos não tiveram outra alternativa que não fosse desligá-la.
Durante dias, que pareceram anos à antena, ela ficou desligada, deixou de ser útil, e tudo porque teve medo daquilo que ela imaginava que iria acontecer.
Porém, num dia de sol e céu azul, a antena ouviu alguém a aproximar-se dela. “É o meu fim.”- pensou ela.
Só que… só que isso não aconteceu, o dono subiu ao telhado para prender melhor a antena, para que ela deixasse de tremer.
Momentos depois a antena parabólica foi novamente ligada e tudo voltou a ser como dantes.
Aquela antena parabólica aprendeu uma lição com este episódio: não adianta ter medo daquilo que pode vir a acontecer, afinal, o que tiver de acontecer, acontecerá.


FIM
PS: Semanas depois a antena parabólica foi efectivamente desligada, tendo sido substituída pela TV por cabo.

23/04/07

Era uma vez um soluço

Era uma vez um soluço, este, tal como todos os outros soluços no Mundo, vivia com medo.
Reparem bem, todos nós temos os nossos problemas, mas ser um soluço é mau de mais, imaginem como seriam as vossas vidas sabendo que toda a gente quer acabar com vocês, deve ser uma sensação no mínimo desagradável.
O soluço desta história, que a propósito se chamava Hic*, não fugia à regra e também ele tinha medo de tudo o que se mexia.
Hic*, apesar da tenra idade, já tinha visto muitos soluços seus amigos, serem pura e simplesmente aniquilados, uns padeceram vítimas de afogamento, outros de falta de oxigénio, e a maioria, a enorme maioria, morreram devido a terríveis sustos.
O relato que se segue é no mínimo controverso e oficialmente ele é negado pelas Autoridades, mas, entre os soluços conta-se, ainda hoje, como Hic* foi bravo e heróico na hora da sua morte.
A tragédia deu-se aquando da visita do Papa João Paulo II a este País.
Como sabem o Papa foi vitima de um atentado contra a sua vida, o que não sabem é que a bala não lhe acertou em cheio porque, na hora em que o terrorista disparou, Hic*, numa atitude de louvar, entrou no sistema do bandido, obrigando-o a soluçar na hora exacta do disparo… Hic* morreu instantes depois, mas o Papa sobreviveu, e tudo graças a um soluço, um corajoso soluço chamado Hic*.

FIM

12/04/07

Era uma vez uma música

Era uma vez uma música.
Ela era ainda muito pequena, na realidade, ela ainda nem sequer era uma música propriamente dita, ela era mais uma melodia, uma pequena e simples melodia que ansiava por crescer rapidamente para ver, ou melhor, ouvir, naquilo em que se iria transformar quando crescesse.
Naquele tempo, só ainda existiam dois ou três tipos de música conhecidos; havia o Jazz, o Rock e a música Sacra.
A jovem melodia rezava todos os dias para que ela não se transformasse em música Sacra (doce ironia).
Certo dia, quando a melodia ia a sair da escola de música, deu de caras com uma cena nova para ela, ela viu uma Clave de Sol agarrada, aos beijos, a um Dó Menor.
A pequena melodia escondeu-se atrás da Pauta Musical e ficou a ouvir o que eles diziam um ao outro.
Inesperadamente, e sem se conseguir controlar, a melodia começou a tocar uma espécie de música, o som era cada vez mais alto.
Pouco depois, centenas de Notas Musicais começaram a surgir do nada, todas foram ouvir aquele novo estilo de música.
E foi assim, sem tirar nem pôr, que nasceu a música Romântica.

(A Clave de Sol e o Dó Menor casaram mais tarde nesse mesmo ano).

FIM

07/04/07

Era uma vez uma Vez

Era uma vez uma Vez.
Certa vez, a Vez foi passear à beira-mar, era a primeira vez que a Vez ia ver o mar, por isso ela estava nervosa.
Assim que a Vez viu o imenso oceano, lembrou-se da vez em que ela viu uma bicicleta pela primeira vez.
Daquela vez, a Vez tentou logo andar de bicicleta mas caiu da primeira vez que tentou, por isso ela tentou mais vezes, acabando por conseguir à décima vez.
A Vez, desta vez, limitou-se a olhar para o mar, mas jurou que alguma vez ela iria andar em cima do mar, tal como da outra vez andou em cima da bicicleta.
Assim, mal o Sol apareceu de vez, a Vez começou a ter aulas de surf, aos poucos, vez após vez, ela lá conseguiu equilibra-se em cima da prancha de surf de vez.
Infelizmente, da vez, em que a Vez tentou andar sozinha pela primeira vez, desequilibrou-se da prancha e caiu ao mar…
Foi a última vez que a Vez foi vista, talvez a Vez ainda esteja viva, quem sabe… talvez ela até esteja agora mesmo a fazer aquilo que mais gostava: fazer alguma coisa pela primeira vez.

FIM

31/03/07

Era uma vez um tipo que queria comprar um frigorífico

Era uma vez um tipo que queria comprar um frigorífico.
Após alguma pesquisa na Internet, o tipo, finalmente, decidiu-se por um modelo específico.
Inocentemente ele deslocou-se, numa sexta-feira à noite, até a um desses centros comerciais, onde a maioria das pessoas gostam de passar o tempo a esbarrarem-se umas nas outras, mas este tipo não, ele sabia exactamente o que estava ali a fazer e foi, por isso, direito à secção de electrodomésticos, mais concretamente à zona onde estavam os frigoríficos.
A negociação foi fria e rápida, a “vendedora” ainda sabia menos sobre frigoríficos que o tal tipo, daí que ele pagou o electrodoméstico imediatamente, via Multibanco… dizem que assim, sem ver o dinheiro a sair da carteira, dói menos.
Um frigorifico é, normalmente, uma coisa grande, ou seja, é difícil de transportar num veículo utilitário, por isso o tipo pediu para que o frigorifico lhe fosse entregue em casa.
A “vendedora” garantiu, quase que sobre a vida dela, que na próxima segunda-feira, sem falta, o frigorifico lá iria estar, mais ou menos entre as 14 horas da tarde e as 20 horas da noite… o tipo sorriu, ele pensou que fosse uma brincadeira, mas a cara da “vendedora” dizia-lhe claramente que não, a coisa era a sério.
Resumindo: após múltiplos telefonemas, esquemas, incompetências, e, novamente, telefonemas, o tipo só teve o frigorifico em casa na quinta-feira… da semana seguinte.
Por tudo isto apetece dizer, ou melhor, gritar: “Não Worten, Nunca!”

PS: o tipo era eu.

FIM

23/03/07

Era uma vez um vidro riscado

Era uma vez um vidro riscado.
O vidro estava colocado numa enorme porta de uma enorme sala, que dava acesso a uma enorme varanda... o risco também era enorme.
No meio de toda aquela grandiosidade, o vidro riscado destoava, era impossível não reparar nele, toda a gente que ia aquela casa apontava-lhe o dedo, e diziam ser inestético, diziam ainda que aquele vidro riscado tinha de ser substituído.
O pobre vidro riscado não era capaz de esconder a tristeza que tinha dentro dele, que culpa tinha ele afinal de ser assim?
O dono da casa, farto de ouvir toda a gente a falar mal do vidro riscado, tomou uma atitude: ele chamou um vidraceiro para substituir o vidro riscado.
O vidro liso da mesma porta, bem que tentou animar o vizinho riscado mas foi inútil.
Numa tarde de sol, o dono da casa estava a olhar para a rua através do vidro riscado, quando uma coisa o obrigou a desviar o olhar.
O risco... o risco no vidro parecia-lhe claramente uma seta, uma seta a apontar para uma mulher que estava sentada no banco do jardim lá fora.
Instantes depois o vidraceiro tocou à campainha, ele trazia um vidro imaculado para substituir o outro.
O dono da casa olhou para o vidro riscado e, pedindo desculpa, mandou o vidraceiro ir embora (claro que pagou a deslocação do tipo).
Anos mais tarde o vidro riscado continua naquela enorme porta, daquela enorme sala, que dá acesso aquela enorme varanda.
Como poderia o dono da casa desfazer-se daquele maravilhoso motivo de conversa? Afinal foi aquele vidro riscado que o ajudou a tomar a decisão de casar com a mulher que estava sentada no banco do jardim.
FIM

16/03/07

Era uma vez um sapato

Era uma vez um sapato preto, o seu nome era 42, pelo menos era isso que ele pensava uma vez que esse algarismo estava inscrito na parte debaixo dele.
42, por motivos que eu próprio desconheço, separou-se do outro par.
Ele vivia dentro de uma velha caixa de cartão azul, azul-escuro.
Muitas vezes, 42 sentia-se triste, isto porque ele ficava a ver os outros pares de sapatos a passear e ele estava ali, sozinho.
Farto daquela situação, 42 decidiu tomar uma atitude, ele abandonou a velha caixa de cartão azul, azul-escuro, e caminhou pelo Mundo fora… ou melhor, saltitou pelo Mundo fora à procura do par.
A vida de um sapato não é fácil, especialmente se ele estiver sozinho, 42 teve de enfrentar muitos e grandes perigos, como fugir de cães estúpidos que adoram roer sapatos, saltar por cima de poças de água contaminada, atravessar passadeiras, e muitos, muitos outros perigos.
No decorrer da viagem, o sapato preto fez amizade com uma sapatilha rosa, ela também andava à procura do par.
Os dois, embora completamente diferentes, entenderam-se e ficaram amigos.
O 42 só não gostava quando a sapatilha decidia correr, é compreensível, os sapatos não foram feitos para correr… acho que a sapatilha sabia disso e apenas queria brincar com o amigo.
A amizade entre os dois cresceu e transformou-se em amor… quer dizer, o amor possível entre um sapato preto e uma sapatilha rosa.
Os dois deram o nó, literalmente, e caminham actualmente juntos por este Mundo fora, agora eles já não procuram par, querem é demonstrar, com o exemplo deles, que apesar das diferenças é possível as pessoas, ou sapatos, viverem juntos e serem felizes.
Por isso, se algum estranho dia virem um sapato preto, de nó dado, com uma sapatilha rosa, não estranhem, é o 42.

FIM

15/01/07

SIT.COM (stand-by)



SIDÓNIO PINTO (O FILHO - SID): Hummm… então tu é que és o namorado do meu pai.
FILIPE PINTO (O PAI - FIL): Sid…
JULIA QUADROS (O NAMORADO - JULY): Deixa, Fil. É natural que o Sid queira saber coisas a meu respeito.
SID: A minha mãe disse-me que tu és uma mulher.
FIL: Valha-me Deus.
JULY: A tua mãe não te mentiu, eu sou uma mulher… por enquanto, pelo menos.
SID: O meu pai gosta de homens.
FIL: Filho.
JULY: Deixa, Fil. Agora que vamos viver os três na mesma casa é bom esclarecer as coisas, afinal vamos ser…
SID: Uma família?!
JULY: Isso mesmo.
SID: Hummm...
FIL: Prepara-te, quando o Sid começa com os “hummm…”, é sinal que vai sair alguma coisa “genial” da boca dele. Nisso ele saiu à mãe, ela também tem essa mania. Alias, no dia em que eu lhe disse que era gay essa foi a única coisa que saiu da boca dela… no dia seguinte apanhei-a na cama com a amante. Essa foi a ultima vez que a vi, ela desapareceu e deixou o Sid na casa dos pais dela, mas agora que eles tiveram de mudar de cidade o Sid passou a ser minha responsabilidade…
JULY: Nossa querido, nossa responsabilidade, estamos juntos nisto. O Sid não tem contacto com a mãe?
FIL: Às vezes ela lembra-se e liga-lhe…
SID: Se tu és uma mulher, apesar de pareceres um homem…
JULY: Sim…?
SID: Se o meu pai é um homem, apesar de se portar como uma mulher…
FIL: Filho.
SID: Se vocês os dois fazem sexo…
FIL: Valha-me Deus…
SID: Isso significa que nós vamos ser… uma família normal... bolas, os putos lá da escola vão ficar decepcionados. Esta noite vocês vão fazer sexo?!
FIL: Olha, filho, chegámos… esta é a nossa casa.
SID: Hummm… espero que o prédio tenha elevador.

SID: Puff… puff… vocês querem dar cabo de mim, é?
FIL: Que exagero, Sid. Nós estamos no rês do chão.
SID: Pois… e as escadas da entrada, não contam?
FIL: Foram 6 degraus.
SID: E o peso da mala?
FIL: Fui eu que a carreguei. A sério filho, tens de fazer uma dieta.
JULY: Concordo, devias fazer mais exercício físico, Sid.
SID: Ai, sim? E como é que vocês os dois mantêm a elegância, é do sexo?
FIL: Han… July, que tal mostramos o resto da casa ao Sid?
JULY: Boa! Vamos, Sid, mexe esse traseiro.
SID: (Estes tipos só pensam em traseiros…) Já vou, calma.

SID: Hummm… então é aqui que vocês os dois fazem sexo…
FIL: Valha-me Deus.
JULY: Sid, repara, eu e o teu pai somos adultos, é natural que duas pessoas adultas, que gostam uma da outra façam amor, entendes?
SID: Hummm… acho que o sexo é como o dinheiro. As pessoas querem sempre mais e gostam de ter o dos outros.
JULY: Olha, acho que quando fores mais velho vais entender melhor… mas lembra-te que para haver sexo é preciso amar a outra pessoa.
SID: Pai, a mãe amava o Carlão, o massagista?
FIL: Quem?!
SID: E será que a mãe ama a Joana Espingarda? Acho que sim, para ter ido viver com ela…
JULY: E que tal nós…
SID: E o Jorge?! Será que a mãe também o amava, paizinho?
FIL: Mas quem é esse?
SID: O Jorge, padeiro… ele ia todos os dias levar pãezinhos fresquinhos à mãe, será que ela o amava?!
JULY: Pessoal, que tal irmos jantar fora? Aposto que o Sid está com fome, vamos?
FIL: O padeiro?!



(continua brevemente...)

18/08/06

Ana S. - Uma História Quase Verdadeira

Apresento-vos Ana S..
Isto de apresentar pessoas assim, por escrito, não é nada fácil, talvez se eu colocasse aqui uma fotografia da pessoa em causa, as coisas fossem mais fáceis, mas no fundo isso iria apenas facilitar o trabalho de quem lê, por isso, e como eu não gosto de privar a ninguém o prazer de pensar, as coisas vão continuar na mesma.
Já vamos à Ana S., mas primeiro convém salientar que esta história seria 100% verdadeira, caso tivesse eu conhecimento, de que ela aconteceu realmente, como tal é positivamente falso, esta é uma história quase verdadeira.

Ana S., nasceu há 55 anos, actualmente ela está divorciada, aliás tal como metade do Mundo, e vive com a sua filha Margarida de 18 anos, numa esplendorosa moradia.
Para além da filha Margarida, o único familiar ainda vivo de Ana é uma irmã, também ela curiosamente divorciada e com uma filha da mesma idade da Margarida, no entanto Catarina, assim se chama a irmã de Ana, vive num modesto apartamento.
Actualmente Ana S. é uma muito conhecida e super-conceituada jornalista, ela trabalha há 25 anos na mais mediática revista de "fofocas" do país, a famosa "Alter-Ego", graças a essa profissão, Ana teve, e ainda tem, o privilégio de poder viajar constantemente pelo Mundo inteiro, ela conhece pessoalmente meia dúzia de "celebridades", dezenas de "famosos" e centenas de "quase-famosos que querem ser celebridades".
Hoje é um dia especial para Ana, a sua filha Margarida faz 19 anos.
Ana é chamada ao gabinete do "big-boss" da empresa, o Dr. Inácio.

Quando Ana entra no gabinete vê que já lá está, sentada em frente da secretária do Dr. Inácio, a Lurdes.
A Lurdes é uma jovem jornalista-estagiária de 25 anos de idade, ela é uma rapariga com uma enorme vontade de vencer na vida, cheia de iniciativa, procurando sempre, através do seu trabalho, melhorar a cada dia… o facto de ser filha do principal accionista da “Alter-Ego” é mera coincidência.
“Ana… senta-te, já conheceste a Lurdes, não é? Então Ana, como vão as coisas, quero dizer, a tua filha, ela está bem, vai bem nos estudos?” – diz o Dr. Inácio.
É sempre assim, quando a entidade patronal nos quer dar alguma má noticia prepara sempre o terreno mostrando-se estranhamente interessados na nossa família e nos nossos problemas, esta vez não fugiu à regra.
Ana foi dispensada.
O Dr. Inácio, depois de Lurdes sair do gabinete, pediu desculpa à Ana, ele argumentou que não teve alternativa, que foram os administradores que decidiram aquilo, eles acharam que a Ana estava a ficar demasiado velha para fazer tantas viagens, e que a revista precisava de sangue novo, ou a Ana era dispensada ou era ele que ia para o olho da rua.
Ana, como mulher de classe que é, fez o óbvio, pegou no copo com whisky que estava em cima da secretária e despejou-o em cima do Dr. Inácio.

Claro, Ana ficou de rastos, no entanto ela não deixou que ninguém na Redacção se apercebesse disso, não, ela não ia dar esse prazer a algumas daquelas pessoas que há muito ansiavam por aquele momento, Ana arranjou forças para pôr a sua melhor cara “tudo bem”, e foi dizendo a quem quis ouvir (e todos estavam a ouvir, mesmo atrás das portas), que na vida haviam coisas mais importantes que um emprego, coisas como ir comprar um belo presente de aniversário para a sua filha Margarida.
No dia seguinte à festa de aniversário, Ana contou o sucedido à filha.
“… e achas que vais conseguir encontrar outra coisa para fazer? De certo que com a tua experiência, talento e conhecimentos, não te vão faltar convites, não é?” – disse a filha Margarida.
Ana S. sorriu e abraçou a filha.
Nessa mesma noite, Ana começou a entrar em contacto, via telefone, com algumas das pessoas “importantes” que ela tinha conhecido ao longo dos anos, algumas dessas pessoas deviam até a sua “fama” às entrevistas que Ana lhes fez para a revista “Alter-Ego”, o objectivo de Ana era encontrar um novo trabalho, algo que a ajudasse a pagar as elevadas prestações daquela luxuosa moradia e a manter o nível de vida que tinha tido até então.

Obviamente que Ana sabia que o “mundo do jet-set”, aquele onde ela viveu durante 25 anos, devido ao seu trabalho, era um mundo declaradamente falso, mas Ana tinha de tentar, pela filha. Durante meses os esforços dela foram em vão.
Ana acabou por perder a casa e teve de ir viver, com a filha, para casa da sua irmã Catarina, apesar de nunca lhe faltar nada, Ana não se sentia bem ali, ela precisava de continuar a tentar… os dias foram passando.
Certa madrugada, Ana acordou sobressaltada, pegou num papel e numa caneta, e escreveu o seguinte:
“Coisas que posso fazer:
1 – Assaltar um Banco
2 – Tornar-me stripper
3 – Usar a Internet
4 – Casar com um milionário”

“Devo estar louca!” – disse ela, depois de ler o que escreveu.
Ana riscou imediatamente as opções um, dois, quatro, e ficou a pensar na terceira opção.
No dia seguinte a irmã de Ana pediu-lhe um favor, pediu-lhe que escrevesse, por ela, uma carta para o colégio da filha, a solicitar uma bolsa de estudo.
Ana escreveu a tal carta e alguns dias depois a resposta do colégio foi positiva.
Este episódio deu à Ana a resposta que procurava, ela decidiu usar a sua experiência em escrever artigos para a revista “Alter-Ego”, para criar um site na Internet, a sua ideia era escrever cartas personalizadas.
As pessoas começaram a aceder ao site “cartaspersonalizadas.com”, o procedimento era muito fácil, as pessoas registavam-se, forneciam os seus dados pessoais, declaravam o motivo da carta, e por fim, pagavam pelo serviço prestado.
A coisa funcionou, passados alguns meses, Ana, ou melhor Betsy - o nome por ela usado no negócio, recebia centenas de pedidos de ajuda; algumas pessoas queriam cartas a pedir perdão por causa de uma traição amorosa, outras queriam cartas a pedir empréstimos de dinheiro ao Banco, pedidos de casamento, pedidos de divórcio, enfim os casos eram muitos.
Graças ao dinheiro que Ana recebia pelas cartas, conseguiu comprar um apartamento e foi para lá viver com a filha.
Um dia Ana recebeu um pedido de ajuda, para escrever uma carta, que a deixou estupefacta; uma pessoa queria que ela lhe escrevesse uma carta de suicídio.

Ana foi verificar os dados dessa pessoa, quando o fez, ficou ainda mais atónita, ela conhecia o individuo, quem se queria suicidar era, nem mais, nem menos, do que o seu ex-patrão, o Dr. Inácio.
Ainda em choque, Ana leu os motivos daquele macabro pedido.
“Estou desesperado.” – lia-se no formulário preenchido pelo Dr. Inácio – “A minha vida transformou-se num autêntico inferno. Desde que fui obrigado a despedir uma funcionária minha, há uns tempos atrás, desde esse maldito dia, parece que o peso do Mundo caiu sobre mim. Montaram-me uma armadilha e eu fui corrido da empresa, que eu próprio ajudei a fundar, sem dinheiro, fui abandonado pela minha mulher, e ainda por cima ela levou a nossa filha com ela… não sei o que fazer… nada faz sentido.”
Ana sentiu pena daquele homem, apesar de ele a ter despedido, Ana não conseguia evitar de sentir pena pela desgraça do Dr. Inácio.
No dia seguinte, Ana deslocou-se até à morada indicada no formulário.
O local era deprimente, e a casa onde morava o Dr. Inácio era-o ainda mais.
Ana bateu na porta, o Dr. Inácio apareceu, ele, que outrora fora um homem elegante e sempre bem vestido, era agora pouco mais que um mendigo.
Ana explicou-lhe como soube de tudo e propôs-se a ajudá-lo, na verdade o que ela lhe propôs foi uma sociedade, Ana desafiou o Dr. Inácio a voltar ao mundo empresarial, aquele que ele tão bem conhecia, e que se juntasse a ela no novo negócio das cartas personalizadas.
Apesar da hesitar, ele aceitou.
A mistura da habilidade natural do Dr. Inácio para os negócios, com o talento da Ana para escrever, começou a dar lucros, muitos lucros.
Em termos financeiros, tanto um como o outro, ficaram em excelentes condições, mas o mais importante de tudo, aquilo que realmente conta, é que eles, com o passar do tempo, voltaram a descobrir o amor, e vivem agora numa esplêndida moradia… cada um na sua, claro!

FIM

11/07/06

A Instrutora

Faz exactamente hoje um ano e três dias (esta data deve ser contada a partir do dia em que isto for lido, seja isso em que data for), com dizia, faz exactamente hoje um ano e três dias que encontrei um tipo vestido de noivo, dentro de um comboio, tendo como destino a cidade de Paris, na França.
O sujeito aparentava ter cerca de 25 anos de idade, a sua estatura física deveria ser média para os padrões actuais, no entanto, não posso precisar com exactidão esse facto uma vez que ele estava sentado, calculei o seu peso corporal como sendo mais ou menos o suposto para um indivíduo com estas características físicas.
Educadamente cumprimentei-o e sentei-me à sua frente.
O comboio não estava lotado, tinha até alguns lugares desocupados, para ser mais preciso, digo que o comboio estava quase vazio, tanto, que o silêncio que imperava na altura em que me sentei, apenas era quebrado pelo barulho da própria locomotiva em andamento… ou seria o velhinho lá atrás a ressonar?
O meu inesperado companheiro de jornada, julgo que para me tranquilizar, disse para eu não estranhar o facto de ele estar vestido daquela forma pouco usual.
Eu sorri, sempre educadamente, e disse-lhe que já não estranhava nada na vida, não, desde o dia em que vi o jogo da Final de um Campeonato do Mundo de futebol onde um jogador, mais especificamente o capitão de uma das equipas, desferiu uma selvática cabeçada no peito de um dos oponentes, esse inqualificável gesto valeu-lhe a óbvia expulsão do jogo, que por sinal era o último da sua carreira professional, no entanto esse mesmo jogador foi, no dia seguinte ao ataque, eleito o Melhor Jogador desse mesmo Campeonato, desde esse dia eu deixei de estranhar o que quer que fosse.

Acho que o tipo vestido de noivo não deve de ter visto esse jogo, pois começou imediatamente a contar-me a razão porque estava ele assim vestido.
Isto foi o que ele me contou:

“Pois é, amigo, aqui vou eu, a caminho do meu casamento, e nem sei ainda se vou encontrar a mulher da minha vida… a mulher da minha vida, nem imagina o tempo que eu perdi até me aperceber disso.
Às vezes parece tão difícil ver o óbvio, não é?
Olhe, faz exactamente hoje um ano e três dias que tudo aconteceu… esse dia ficou gravado na minha memória como uma música está gravada num CD, percebe? É impossível de apagar.
É, há coisas que um homem não esquece facilmente… como aquele dia… bem, na realidade foi uma noite, claro, tinha de ser de noite… aquela parecia ser mais uma noite, igual a tantas outras, dizem que a noite é a melhor companhia dos solitários e desafortunados… o que se passa é que naquela altura eu estava desempregado, desempregado e sem grandes expectativas de encontrar um emprego decente, por isso refugiei-me na noite.
Foi uma época amarga da minha vida, eu vivia num minúsculo quarto, alugado na zona mais degradante desta cidade, as condições eram francamente más, mas aquilo era tudo que eu podia ter na altura.
Aquela noite… bom, aquela noite não fugiu à regra, e às 22 horas, pontualmente, lá estava eu, sentado religiosamente ao balcão de um qualquer bar desta cruel cidade, a tentar afogar as minhas mágoas em incontáveis cocktails, uns atrás dos outros… uns atrás dos outros.
Já deviam ser umas 2 da manhã quando… ou então, eram apenas 23 horas, não sei, eu estava tão bêbado que, no dia seguinte, quando finalmente acordei e recuperei alguns dos meus sentidos, me interroguei se o que tinha acontecido na véspera, tinha de facto acontecido, ou teria, apenas, sido tudo fruto da minha alcoolizada imaginação.”

O tipo fez uma pausa, sacou de um cigarro e acendeu-o, eu, educadamente, disse-lhe que era proibido fumar naquela carruagem, ele, acho que meio a brincar, disse-me que se eu lhe deixasse fumar aquele cigarro até ao fim, me contaria o que lhe aconteceu naquela noite… a viagem até Paris era longa e enfadonha, abri ligeiramente a janela e sentei-me novamente, o indivíduo disse então:

"Amigo, imagine agora este cenário: a mulher perfeita!
Pense, pense por alguns instantes no seu ideal de beleza feminino, tente visualizar o corpo dela, o cabelo, cor dos olhos, a boca, a voz... até a voz, se conseguir... aposto que consegue.
Pois agora eu garanto-lhe que vi essa mesma mulher naquela noite, quero dizer, vi o meu ideal de mulher naquela noite.
Meu Deus... sim, Deus, foi precisamente a partir do momento em que a vi que voltei a acreditar em Deus, e na sua existência... ela... ela era a perfeição em pessoa.
Bom, mas naquela manhã eu estava demasiado confuso, lembrava-me somente de alguns pormenores, como o facto de ter sido ela a vir ter comigo, de termos falado durante algum tempo, do nome dela ser Cristina e... lembrava-me do mais estranho: um inesperado pedido que ela me fez, na verdade acho que não foi bem um pedido, acho que foi mais um desafio, ela desafiou-me a... bom, ela desafiou-me a ter relações sexuais com ela dentro do meu carro... lamentavelmente a obstinação, ou sei lá, tara, da Cristina por meios de transporte, revelou-se uma enorme desilusão para mim, uma vez que naquela altura eu ainda não tinha a carta de condução, quanto mais um carro.
É verdade, meu caro, eu tinha perdido a oportunidade, talvez única, de fazer amor com o meu sonho... de qualquer das formas, nessa manhã, tomei a natural decisão de voltar ao mesmo bar, onde tudo tinha, pensava eu, acontecido.”

O tipo pousou o cigarro e levantou-se para tirar o casaco, eu disse-lhe, ainda que de forma naturalmente educada, que aquela história me parecia difícil de acreditar, o fulano sentou-se e pegou novamente no cigarro, ele disse-me que entendia a minha perplexidade mas depois continuou:

“E lá fui eu… devo-lhe confessar que antes de sair de casa, pus uma dose extra de perfume, sabe, apesar do que algumas pessoas dizem, a verdade é que a maioria das mulheres prefere que o “cheiro a cavalo” se mantenha, apenas e só, nesse animal… mas como lhe dizia, lá fui eu ao bar, carregado de perfume e esperança em encontrar novamente aquele anjo em forma de mulher.
Entrei no bar e sentei-me, sentei-me precisamente no mesmo sítio da noite anterior, pedi uma bebida sem álcool e esperei… fiquei ali, durante horas, sentado naquele mesmo banco, quase como se ele fosse sagrado… infelizmente a Cristina não apareceu nessa noite, nem nessa noite nem nas três seguintes.
São coisas assim, como esta, que fazem com que um homem deixe de acreditar em Deus, como vê, caro amigo, a minha fé é do tipo iô-iô, vai e vem… e passados uns dias ela veio novamente.
Quando a Cristina apareceu lá no bar eu fiquei siderado, ela era ainda mais bonita do que aquilo que eu me lembrava, e o melhor de tudo é que ela se lembrava de mim.
Conversamos durante algum tempo sobre coisas banais, depois não resisti e perguntei se ela se recordava da “proposta” que me tinha feito na primeira noite em que nos vimos.
Ela não disse nada, aqueles breves segundos de silêncio pareceram-me dias, quando recomecei a falar ela interrompeu-me, por detrás de um sorriso ela perguntou se eu já tinha resolvido o meu problema, ela estava a referir-se ao facto de eu não ter carro, entende? Claro que eu ainda não tinha carro, mas não ia ser um pormenor como esse que me iria impedir de ter aquela mulher nos meus braços, eu era capaz de vender a minha alma ao Diabo se fosse preciso, mas nessa noite eu tinha de arranjar um carro, desse por onde desse, por isso disse-lhe que sim, que já tinha resolvido o meu problema, só que… só que a Cristina insistiu em ver a minha carta de condução, fez questão disso, não tive hipótese, sem carta não havia carro e sem carro não havia Cristina.
Ela apenas disse: “Que pena.”, pouco depois a Cristina saiu do bar e eu fiquei ali sozinho, rogando pragas a Deus por Ele não ter enviado um sinal qualquer a avisar que deveria ter tirado a carta quando fiz 18 anos, senti-me abandonado pela fé e pela sorte.
Contudo, quando saí do bar, vi uma coisa que me fez pedir imediatamente perdão a Deus, por ter duvidado da sua benevolência.”

O tipo deu a última passa no cigarro e atirou a ponta pela janela, entretanto, sem que eu tivesse dado conta, o velhinho que estava a ressonar quando eu entrei no comboio, estava agora sentado ao meu lado, parecendo verdadeiramente interessado na história do “noivo”, eu olhei para o homem e cumprimentei-o educadamente, o velho não foi nada educado, não me respondeu sequer, ele apenas pediu ao outro fulano para continuar a historia, este não se fez rogado e disse:

“Uma escola de condução, senhores, eu vi uma escola de condução, ali, mesmo ao lado do bar.
Entendi aquela aparente coincidência como sendo um sinal divino… sei lá, uma espécie de rebuçado dado pelo Senhor, talvez para tentar compensar o facto de Ele se ter esquecido de me avisar, que era suposto eu já ter tirado a carta, não sei… fosse o que fosse, a verdade é que no dia seguinte fui-me matricular naquela escola.
Sabem, o dinheiro que tive obrigatoriamente de pagar pela inscrição fez-me pensar, pensar se tudo aquilo valeria realmente a pena, percebem? Que raio, um homem tem de ser mais do que um animal em cio permanente, um “buscador” incessante de prazer carnal… será que só conseguimos alcançar a felicidade através do sexo? Mesmo que essa felicidade seja, em alguns casos, de breves minutos?
Naquela altura eu pensava que sim, sem qualquer dúvida que sim, por isso ter vendido o anel de família, para arranjar dinheiro suficiente para pagar a carta, não foi assim tão doloroso.
Bom, depois de eu passar a desagradável fase das aulas teóricas, comecei, finalmente, a ter aulas práticas, o meu instrutor era uma pessoa absolutamente normal, tanto, que só na segunda aula é que olhei verdadeiramente para ele, e vi que era uma mulher… não que ela fosse feia, ou se parecesse com um homem, não, nada disso, até pelo contrário, o problema é que eu estava enfeitiçado pela Cristina e só tinha olhos para ela.
À noite, quando ocasionalmente encontrava a Cristina no bar, ela vinha ter comigo e perguntava-me sempre a mesma coisa; se eu já tinha resolvido o meu problema… claro, eu dizia-lhe que estava a tratar do assunto, então ela afastava-se e ia ter com outro homem, e depois outro e outro… eu não percebia aquela sua atitude, mas mais tarde vim a descobrir tudo…”

O mal-educado do velhote interrompeu o tipo, chamando em voz alta prostituta à Cristina, isso fez com que uma mulher, que estava sentada num banco próximo ao nosso se insurgisse contra o velho, dizendo que ele estava a acusar uma pessoa sem provas.
Gerou-se, a meu ver, um burburinho muito desagradável, por isso pedi calma, depois convidei a jovem senhora, que por sinal era bastante bonita, a sentar-se junto de nós para ouvir o restante da história, ela, muito educadamente acedeu ao meu convite e apresentou-se com o nome de Márcia.
Depois de ela se sentar, precisamente à minha frente, e apesar do velho não parar de resmungar, o “noivo” continuou dizendo:

“Os dias foram passando, à medida que as aulas de condução iam avançando, eu começava a sentir uma estranha ansiedade, dava por mim especado na escola de condução horas antes do início das aulas, às vezes eu ia até lá e nem sequer tinha aulas… associei essa ansiedade, ao meu desejo de finalmente… desculpe, menina, mas tenho de ser franco, eu associei essa ansiedade ao meu desejo de finalmente poder possuir a Cristina.
Claro, é claro que tinha de ser por isso, só poderia ser por isso, que outro motivo haveria? Com certeza que não era por causa da Joana, a minha instrutora, uma mulher simples, ainda por cima divorciada e com um filho pequeno… o Pedrinho, não, não podia ser por causa dela.
Sabem, durante as aulas eu nunca contei à Joana, o verdadeiro motivo de eu querer tirar a carta de condução, na verdade eu nem me lembrava disso quando estava com ela… nós falávamos de outras coisas, falávamos dos lugares onde gostávamos de ir, dos filmes que vimos, dos livros que lemos, das músicas que ouvimos, dos sonhos… dos sonhos desfeitos, da esperança no futuro, falávamos dos nossos medos e alegrias… enfim, se os meus olhos não mentirem, acho que vocês já devem ter notado que eu me apaixonei por ela.”

Desta vez, quem interrompeu o tipo, foi a Márcia, ela achou aquela parte da história muito querida, e fez questão de o dizer.
Estranhamente, para mim, o velhote foi educado e concordou com a Márcia.
Devo ser sincero, eu não ouvi aquela parte da história com muita atenção, os meus pensamentos estavam demasiado ocupados com a Márcia… pensamentos educados, entenda-se.
O “noivo” retirou de um bolso do casaco a carteira e mostrou-nos uma fotografia da Joana, a tal instrutora, depois disse:

“Estava a chover, estava a chover, quando o dia da última aula chegou… enchi-me de uma coragem que não sabia sequer ter, e contei tudo à Joana, tudo.
Disse-lhe o motivo de eu querer tirar a carta e falei-lhe na Cristina… sabem o que ela me disse? Nem vão acreditar.
A Joana conhecia a Cristina.
Segundo o que a Joana me contou, a Cristina era apenas uma vítima, uma vítima do próprio marido, o dono da escola de condução. O bandido montou um esquema para ter mais alunos, obrigando a Cristina a seduzir homens que não tinham carta de condução… como foi o meu caso.
Entretanto, algum tempo depois, eu soube que a Cristina não aguentou mais aquela situação e pediu o divórcio, ela foi inclusivamente, denunciar o marido à polícia… nunca mais soube nada dela.
Bom, mas voltando à minha última aula de condução, depois da Joana me contar tudo aquilo, eu fiquei… sem palavras, literalmente.
Mas, também, para que são precisas palavras quando estamos apaixonados, e os nossos olhos falam por nós? Foi isso que aconteceu… beijámo-nos.”

Tive de ser eu a interromper o tipo, para oferecer um lenço de papel à Márcia, que estava visivelmente emocionada, até o velhote estava, mas a esse eu não ofereci nada.
Por fim, o “noivo” contou que estava a caminho de Paris, mais concretamente, a caminho da Euro Disney, local para onde a Joana tinha ido passear com o filho Pedro, para lhes fazer uma surpresa e pedir a mão de Joana em casamento.

Agora que recordo esta minha viagem a Paris, não posso deixar de pensar em como a vida é irónica e cheia de coincidências… é que agora chegou a minha vez de ir vestido de noivo, e aqui vou eu, a caminho do meu próprio casamento, cheio de vaidade e orgulho, por me ir casar com a mulher mais deslumbrante deste mundo, a Cristina.

FIM

29/05/06

Novelog "Desejo Maldito"

Local: Motel "Biutifule Escai"
Horas: 16.00
Clima: quente e seco
Temperatura: 34 graus centigrados
Humidade: estupidamente alta
Altitude: 210 metros acima do nível do mar (+/-)
País: Brasil
Cidade: Rio de Janeiro
Música de fundo: nível demasiado baixo para ser identificada
Decoração do quarto: normal, para um motel de 5ª categoria (uma cama)
Nome dele: Isaías Jaqueson “Tripé” dos Santos
Idade dele: 40
Profissão dele: Filhinho de papai (papai é multi-milionário)
Nome dela: Gracineide Cabocla
Idade dela: Muito mais nova que ele
Profissão dela: Empregada doméstica (dele)

ACÇÃO!
CAPITULO I

Gracineide está sentada na cama, Isaías se aproxima dela.

“Meu bem, finalmente estamos sozinhos, sonhei muitas noites com este momento.” – foi dizendo Isaías, pegando as mãos de Gracineide.
“Isaías, eu…” – Gracineide se levanta, virando as costas pró Isaías.
“Graci. Que se está passando? Você tem alguma coisa pra falar pra mim?” – Isaías pega nos braços dela. “Pode falar, gatinha.”
Gracineide se vira para ele, ela baixa o rosto e se senta novamente na cama.
Isaías se agacha perante ela e coloca suas mãos nos joelhos de Gracineide.
“Não, por favor… pare…” – diz Gracineide se levantando bruscamente e avançando até à porta do quarto. Isaías a impede de sair.
“Graci… eu não estou entendendo. Você sabe o quanto eu sou vidrado em você… sei bem que você é apenas uma empregada doméstica, mas nosso amor é bem mais forte que um preconceito bobo desses. Relaxe… olhe bem fundo nos meus olhos… são os olhos de um cara apaixonado que você está enxergando.”
“Isaías…”
Ele coloca suas mãos no rosto dela.
“Graci, você está assim porque deve de ter ouvido um montão de bobagem a meu respeito, né? Pode abrir o jogo… sei bem o quanto as pessoas são invejosas.”
“Não… não é isso.” – diz Gracineide, desviando o olhar.
“Se você ainda tem dúvidas em relação ao meu amor pode ficar descansada, eu sou super-amarrado em você.”
“Você não está entendendo… nós não podemos ficar juntos.”

CAPITULO II


Gracineide tenta abrir a porta, Isaías a impede.
“Não, Graci. Você só vai sair daqui, depois que me der uma explicação.”
“Tá legal…” – Gracineide solta um suspiro. “Você ia acabar ficando sabendo mesmo.”
“Fala logo, não esconde mais o jogo.”
Gracineide abre sua bolsa e pega um papel.
“Isaías, nós não podemos ficar juntos porque, nós, os dois… somos irmãos.”
“Como é que é?! … qué que você me está dizendo?”
“Tente se manter calmo, também levei um choque assim que soube…”
“Você só pode estar brincando… não… isso não é possível.”
Isaías coloca suas mãos na cabeça, andando de um lado pró outro.
“Não tem um jeito fácil de dizer isto, mas seu pai, o Doutor Criomar… é meu pai também.”
Isaías se coloca em frente de Gracineide.
“Como é que você soube, quem lhe contou, quem mais sabe disso?” – perguntou sem parar Isaías.
“Minha mãe… foi minha mãe que me contou tudo… a semana passada, pouco antes de morrer…” “A governanta Jacinta?!"

“Sim, mamãe teve um relacionamento com seu pai, há muitos anos atrás… e eu sou o resultado desse relacionamento mantido em segredo até agora…”
“Mantido em segredo?! Quer dizer que minha mãe não soube de nada?”
“Não, Isaías… sua mãe morreu sem saber de nada… foi melhor assim pra todo o mundo.”
Isaías se senta na cama, parecendo mais calmo.
“Quem mais sabe disso, e como você pode ter a certeza que Jacinta falou a verdade pra você?”
Gracineide se aproxima dele.
“Ninguém mais sabe disso… e eu tenho a certeza porque… olha aí…” – Gracineide entrega um papel pró Isaías. “Tá aí a prova, esse é o resultado de paternidade, fui buscá-lo hoje de manhã cedo.” – Isaías lê o papel. “Foi fácil de arranjar um cabelo de seu pai… do nosso pai, pró teste.”

CAPITULO III

Depois de ler o teste de paternidade, Isaías só consegue pensar numa coisa: a herança que seu pai, o Dr. Criomar, lhe vai deixar em testamento, agora ela vai ter de ser dividida com outra pessoa, e logo com uma empregadinha bastarda.
“Você está se sentindo bem?” – pergunta Gracineide, vendo que Isaías não fala nada.
Isaías se levanta, caminhando até à janela do quarto, com o teste na mão.
“Você pensa que vai conseguir o que quer, né?”
“Como assim, Isaías? De que é que você está falando?”
“Ora, Graci, não seja tão cínica, você só está a fim de pegar a grana do coroa.”
“Mas…”
“Pois seu golpe deu errado, olha aqui o que eu vou fazer com essa porra.” – Isaías rasga furiosamente o teste de paternidade, jogando-o pela janela.
“Você está louco, eu não quero nada… só quero que o Dr. Criomar reconheça que eu sou filha dele.” – Gracineide pega a bolsa e tenta abrir a porta, Isaías a impede.
“Onde é que tu pensa que vai?! Você não vai a lugar nenhum… ainda temos um negócio pra resolver.” – diz Isaías, agarrando Gracineide.
“Me larga, você está louco… me larga, você está me magoando.”
Naquele instante entram no quarto dois caras, vestidos com o uniforme da selecção de futebol do Brasil, um cara tem colocada a máscara do Ronaldinho Gaúcho e o outro a máscara do Roberto Carlos.

CAPITULO IV

Quando os dois caras entram no quarto, eles derrubam Gracineide com a porta, ela cai no chão, ficando inconsciente.
Os dois caras se apercebem da situação.
“Pô, cara… foi mau… falha nossa. Aí, pega tua mina e a joga em cima da cama, morou?” – diz Ronaldinho pró surpreso Isaías.
“Mas que porra é essa?! Caiam fora daqui, seus moleques.” – diz Isaías, irritado.
“Tu não ouviu o meu camarada, otário?!” – diz Roberto Carlos, sacando de uma arma, escondida no uniforme, e a apontando pró Isaías. “Pega tua mina e a joga em cima da cama… tá ligado?”
Isaías se assusta e não tem outra alternativa que não seja obedecer.
Ronaldinho fica espiando o corredor pela porta entreaberta.
“É isso aí, titio… agora te encosta nessa parede… se tu é um cara inteligente não vai tentar nada, sacou?” – diz Roberto Carlos, apontando a arma pró Isaías.
“Aí, titio… a gente não se conhece não? Tua cara não me é estranha…” – continua dizendo Roberto Carlos.
“Aí, fica ligado…” – diz Ronaldinho pró Roberto Carlos. “Ele tá vindo lá.”
Segundos depois entra um terceiro cara vestido com o uniforme da selecção de futebol do Brasil, este tem a máscara do Adriano, assim que ele entra, Ronaldinho fecha a porta.
Os três caras se cumprimentam alegremente.
“Aí, tudo certo?” – diz Ronaldinho pró Adriano.
“Tudo jóia… saca só.” – diz Adriano levantando a camisa, ele tem um montão de notas presas nos shorts.
“Show de bola! Olha eu aqui.” – diz Ronaldinho, levantando a camisa, ele também tá carregado de notas nos shorts.
“Aí, irmãozinho… qué que tu tem pra mostrar pra gente?” – pergunta Adriano pró Roberto Carlos.
“Anda logo, cara.” – diz Ronaldinho.
“Pô, foi mau… só peguei isso daqui.” – diz Roberto Carlos levantando a camisa, ele só tem meia dúzia de notas nos shorts.
Adriano e Ronaldinho se riem de Roberto Carlos.
“Pode ficar tranquilo, brother… a galera vai rachar tudo… viu, mané? – diz Adriano, tirando onda.

CAPITULO V

Adriano, finalmente, se apercebe que naquele quarto de motel, para além de seus camaradas; Ronaldinho Gaúcho e Roberto Carlos, tem mais alguém lá.
Ele fixa o olhar no Isaías, que continua com os braços no ar.

“Dr. Isaías?! Qué que o senhor está fazendo aqui?” – pergunta Adriano pró Isaías.
“Ué… tu conhece o cara?” – pergunta Roberto Carlos pró Adriano.
Adriano olha para a cama, ele enxerga o corpo de uma mulher lá deitado.
“Ah… saquei o lance. Aí, Doutor, desculpe o mau jeito. A galera aqui não vai demorar muito, não… é só o tempo das coisas darem uma esfriada lá fora… sabe como é que é. Logo, logo, o senhor vai poder terminar o negócio que veio fazer aqui, viu?”
“Vem cá… eu te conheço?” – pergunta Isaías pró Adriano.
“Pô… claro que conhece, sou eu…”
“Aí, Einstein, tu tá com a máscara colocada.” – sopra Roberto Carlos pró Adriano.
“Einstein é a vovôzinha, sacou? Fica quieto.” – diz Adriano, retirando lentamente a máscara. Ele se vira pró Isaías. “Aí, Doutor… Tá sacando agora a figura do cara?”
Assim que Isaías vê o verdadeiro rosto de Adriano, toma um susto e quase cai.

CAPITULO VI

“Xiiii, olha aí o cara, ficou branco que nem a sua bunda.” – diz Roberto Carlos pró Ronaldinho.
“Que negócio é esse? Tu nunca viu a minha bunda pra saber.” – responde Ronaldinho.
“Pô, foi mau… eu queria dizer a bunda da sua garota.”
“Repete… repete, se tu é home.” – diz Ronaldinho irado, apontando uma pistola pró camarada, Roberto Carlos se ri.
“Aí, molecada… cês vão parar com essa porra? O Doutor aqui tá ficando assustado pra valer.” – diz Adriano.
“É esse mané aí.” – diz Ronaldinho.
“Mané é tu, ó otário.” – responde Roberto Carlos.
“Num ligue não, Doutor, os moleque só tem é garganta… vem cá, o senhor já sacou quem eu sou? O Doutor já me viu, se lembra? Na casa de seu papai, à entrada, falando com uma sua empregada, a…”
“Sim, sim… eu me lembro, eu me lembro.” – responde Isaías se afastando o mais que consegue da cama.
“Aí, o Doutor pode baixar os braços, ninguém aqui lhe vai fazer mal. O senhor tá assim, a meios que surpreendido, porque num esperava me ver aqui, né? Fazendo um negócio sujo como esse daqui.” – diz Adriano mostrando as notas pró Isaías.
“Que negócio sujo, que nada, pô! Nois num acabou de pegar a nota toda de uma lavandaria? Então, negócio mais limpo que esse num tem.” – diz Roberto Carlos, sorrindo.
“Falou, nois limpou a lavandaria.” – diz Ronaldinho, às gargalhadas.
“É Doutor, nem todo o mundo tem a sorte de nascer milionário, que nem o senhor.” – diz Adriano.
“Eu compreendo… mas será que dá pra me liberar?” – pergunta a medo Isaías.
“Sabe, eu só fiz este negócio porque tava sem dinheiro nenhum… sabe como é que é… eu queria comprar um anel de noivado e este foi o único jeito de arranjar a grana.” – diz Adriano.
Entretanto Gracineide se começa a mexer na cama, aos poucos ela recupera seus sentidos.

CAPITULO VII

“Nossa… que aconteceu comigo?” – pergunta Gracineide meio grogue.
Isaías tenta sair do quarto, Ronaldinho o impede.
“Qué que tá acontecendo aqui?” – diz Adriano. “Tou reconhecendo a voz dessa garota.”
“Tou ferrado.” – sopra Isaías.
Gracineide olha pró Adriano. “Você?!” – pergunta ela, confusa.
“Graci? O que você está fazendo aqui?” – pergunta Adriano.
“Txi… aí, o clube tem mais um membro.” – diz Roberto Carlos pró Ronaldinho.
“Cala a boca, pô!” – responde Ronaldinho.
Gracineide se senta na cama, tentando pôr suas ideias em ordem.
“E aí, Graci… tu vai me explicar o que tu tá fazendo num quarto de motel com este cafageste?” – pergunta nervosamente Adriano.
“Pelo amor de Deus, não é nada do que você está pensando.” – apela Isaías.
“Tu tá morto, cara… e morto não fala.” – ameaça Adriano.
“Amor…” – diz Gracineide tentando acalmar Adriano.
“Amor? Tu ainda tem a coragem de me chamar de amor? Nossa… como eu fui otário… me meti numa fria tentando sacar uma grana pra te comprar um anel… um anel de noivado, porra. E tu me faz uma dessas? Não, eu não sou seu amor…” – diz Adriano desesperado.
“Pelo amor de Deus… lhe fale do teste…” – diz Isaías pra Gracineide.
“Já falei que morto num fala, pô! Se tu abre a boca de novo vai tomar chumbo.” – diz furiosamente Adriano, ele dá uma pausa pra pensar e se tentar acalmar. “Que teste é esse, Gracineide?” – pergunta ele, Gracineide limpa suas lágrimas do rosto.
“Você tem de acreditar em mim… o Doutor Isaías e eu não fizemos nada de errado…” – Gracineide se levanta, avançando até ao Adriano. “Eu nunca iria trair você… nunca. E… e…”
“E, o quê? Fala logo.” – diz Roberto Carlos.
Adriano se vira por momentos pró Roberto Carlos, com cara de quem comeu e não gostou.
“Foi mau… eheheh.” – diz Roberto Carlos.
“Amor… eu e o Doutor Isaías nunca que poderíamos ter um relacionamento porque na verdade nós os dois… somos irmãos.” – diz Gracineide tentando abraçar Adriano.

CAPITULO VIII

“Como é que é?!” - diz Adriano, afastando Gracineide.
“Irmãos… irmãos de verdade… eu e o Doutor somos irmãos.” – fala Gracineide, olhando nos olhos do Adriano.
“Cara, você tem de acreditar no que ela está falando… “ – sai implorando Isaías.
“Meu, agora eu já ouvi todas as desculpas pró encornamento… fala sério.” – diz Roberto Carlos pró Ronaldinho.
“Acredite em mim, amor… eu só vim aqui pra contar a verdade pra ele. Também levei um choque quando soube… foi mamãe que me contou… antes de morrer.” – diz Gracineide, com lágrimas nos olhos.
“Você deve de pensar que eu sou bobo pra acreditar numa história, pra lá de inacreditável, como essa daí.” – diz Adriano.
“Lhe fale do teste, Gracineide… lhe fale do teste.” – diz Isaías.
“Mas que porra de teste é esse?!” – pergunta Adriano.
“O teste… o teste de paternidade, que confirma que o pai do Doutor Isaías, é também meu pai.” – diz Gracineide.
“E cadê esse teste?” – pergunta Roberto Carlos.
“Sim, onde está esse tal teste?” – pergunta também Adriano.
Gracineide fica em silêncio, olhando pró Isaías.
“Eu… eu o joguei pela janela.” – confessa Isaías. “ Mas você tem de acreditar…”
“Ora, faça-me um favor… tu vai é morrer.” – diz furiosamente Adriano, apontando uma arma pró Isaías.
“Não… lhe suplico… por favor.” – implora Isaías, se ajoelhando no chão.
“Aí, o negócio não era apagar ninguém.” – diz Ronaldinho pró Adriano.
“É… tu não tá pegando muito pesado, não?” – diz Roberto Carlos.
“Por favor… me poupe… ” – implora novamente Isaías.
Adriano olha pra todo o mundo.
“Olha aqui, se tu não quer morrer, vai ter de dar algo em troca.” – diz ele.
“Eu lhe dou tudo que quiser… “ – diz Isaías.

CAPITULO IX

“O seu cofre.” – fala Adriano.
“Cofre… que cofre?! Não sei do que…” – diz Isaías.
“Gracineide me falou dele.” – diz Adriano, olhando prá Gracineide.
“Por favor, amor…” – diz Gracineide, tentando chegar perto de Adriano.
“Pare! Se sente na cama… faça o que estou mandando.” – ordena Adriano, Gracineide obedece.
Adriano se aproxima um pouco mais de Isaías.
“Por favor…” – implora Isaías.
“É Doutor, o senhor é muito esperto, né? Ninguém sabe do seu cofre… do seu secreto cofre… “ – diz Adriano, brincando com a arma que tem nas mãos.
“Eu não sei do que você está falando, eu juro que não sei…” – fala Isaías desesperado.
“Tá legal, o senhor não se lembra… tá com a memória fraca, eu entendo, mas deixa que eu te ajudo a lembrar; o Doutor tem um cofre secreto, sim… um cofre que tu pensa que mais ninguém sabe da sua existência… sim, pode olhar bem prá Graci, ela sabe onde ele fica… infelizmente ela nunca contou pra mim o lugar exacto desse cofre… pra falar a verdade, Doutor, acho que ela pensa que eu sou um bandido… dá pra acreditar?” – discursa pleno de confiança Adriano.
“Seu cafageste…” – grita Gracineide, tentando agredir Adriano, Roberto Carlos a segura.
“Como é?! Sua memória tá melhorando?” – pergunta Adriano, Isaías baixa sua cabeça. “Outra ajuda, Doutor: seu cofre está cheio de jóias… vejo que já se lembra. Olha aqui, espero que sua memória tenha melhorado porque eu quero o código que abre a porra desse cofre… e o quero agora!” – exige Adriano.
Gracineide se joga em cima da cama chorando.
“Mesmo que eu diga o código vocês vão-me matar de qualquer jeito.” – desabafa Isaías.
“Doutor, eu não tenho nada a perder, tu já me viu o rosto mesmo, agora o caso é o seguinte: se tu não dá o código eu te apago, se tu dá o código tem possibilidades de viver… qual que tu escolhe?” – pergunta Adriano, apontando a arma pró Isaías.
Ronaldinho e Roberto Carlos se aproximam de Adriano, ficando cochichando.
“Tu tem certeza do que está fazendo?” – pergunta Ronaldinho pró Adriano.
“Fiquem frios, o cara vai falar, tenho a certeza… se imaginem a passear em qualquer parte do Mundo, com gatinhas pró todo o lado, vai ser moleza. Aí, assim que ele der o código vocês o levam pró barracão… eu mais tarde apareço lá… com as jóias” – diz Adriano entusiasmado.
“E a garota?” – pergunta Ronaldinho.
“Deixa isso comigo.” – fala Adriano, se virando pró Isaías. “Aí, Doutor, seu tempo terminou… pode falar.” – ordena Adriano.
Isaías suspira.
“Tu não ouviu o meu camarada? Pode falar.” – diz Roberto Carlos.
“…” – Isaías diz qualquer coisa imperceptível.
“Fala direito, pô!” – ordena Adriano.
“2-6-7-9” – diz Isaías irritado.
“Decorou?” – pergunta Ronaldinho pró Adriano.
“Tranquilo, tá registado. Aí, checa a rua, e você dá uma espiada no corredor.” – diz Adriano prós dois camaradas, ele se abaixa pra falar com o Isaías. “Se prepara, tu vai dar um passeio.”
“Tá tudo limpo, podemos ir.” – diz Roberto Carlos. “Doutor, se tu tenta dar uma de herói vai-se dar mal, falou? Fica de boca calada que é melhor pra todo o Mundo.” – avisa ele, agarrando o braço de Isaías.
Ronaldinho e Roberto Carlos se aproximam da porta do quarto, se preparando pra sair, Isaías tá com eles.
“Aí, tu te entende com a madame?” – pergunta Ronaldinho pró Adriano.
“Pode deixar, a cachorra vai dizer onde fica o cofre, fica tranquilo…” – diz Adriano.
“Falou, vamos nessa.” – diz Ronaldinho.
Os três saem do quarto.
“Agora nós os dois.” – diz Adriano prá Gracineide.
Ela se levanta, limpa as lágrimas do rosto, se aproxima de Adriano e lhe dá um valente tapa na cara.

CAPITULO X

“Hei… porque foi isso?” – pergunta Adriano, colocando sua mão na face.
“Cachorra é a sua mamãe.” – diz Gracineide irritada.
“Ué, não era pra ser convincente?”
“Mas precisava exagerar?! E olha aqui, porque você trouxe aqueles caras?”
“Achei que ia ficar mais real assim… não fique magoada comigo… vem cá.” – diz Adriano agarrando Gracineide e lhe dando um beijo na boca.
“Nosso plano correu direitinho, né?” – pergunta Adriano.
“Sim… só não esperava levar com uma porta na cara.” – diz Gracineide sorrindo.
“Agora vamos…”
“Sabe, amor… continuo achando que você não deveria de ter trazido aqueles caras.”
“Não estresse, meu bem… os caras são pra lá de estúpidos… olha aqui, vamos lá na casa do Doutor, abrimos o cofre e damos o fora desta cidade pra sempre, não tem como eles nos achar.”
“Tem certeza?”
“Claro… sabia que você fica ainda mais linda quando está preocupada?” – diz Adriano passando os dedos nos cabelos de Gracineide.
“Eu amo você.”
Adriano e Gracineide se beijam intensamente.

FIM

CAPITULO EXTRA

Nesse instante, subitamente, a porta do quarto é violentamente derrubada, alguns policiais armados entram correndo, eles apontam suas armas pró surpreendido casal.
“Mãos para cima.” – grita um dos policiais.
“Mas…” – Adriano tenta dizer qualquer coisa.
“Seus pilantras.” – diz o mesmo policial, se aproximado do casal, com ar de satisfação. “Vocês pensavam que ser fácil assim?! Fiquem sabendo que a nossa força policial é conhecida no mundo inteiro pela sua competência… não fique tão surpreendido, cara… nós andávamos tentando pegar os delinquentes que roubaram a lavandaria aqui próxima, aí o agente Peixoto…”
“Olha eu aqui.” – diz o agente Peixoto acenando.
“Aí o agente Peixoto viu um papel suspeito sendo jogado fora, precisamente desta janela aqui.” – o agente se aproxima da janela, espreitando para a rua. “Quando ele pegou o papel, conseguiu ler o nome do Doutor Isaías, figura muito conceituada nesta cidade… Peixoto me comunicou o ocorrido e se escondeu num local estrategicamente escolhido…”
“É… na verdade, eu tinha de ir no banheiro mesmo.” – diz o agente Peixoto.
“Foi através do banheiro público, aquele bem ali em baixo, que o agente Peixoto viu os três suspeitos entrando neste motel… depois foi moleza, Peixoto deixou tudo nas minhas mãos… o caso, quero dizer.”
“É… foi aí que o agente Douglas.” – diz o agente Peixoto.
“Sou eu, claro.” – diz o agente policial que tinha estado a falar.
“Foi aí que Douglas decidiu mandar a gente entrar neste motel, quando íamos passando por este quarto ouvimos vozes suspeitas… foi só pegar um gravador, ficar bem coladinho na porta e gravar tudo.” – diz o agente Peixoto, mostrando um pequeno gravador.
O agente Douglas se aproxima do casal e diz o seguinte: “Pode crer, Peixoto… o mal dos brasileiros é que pensam que a vida é de brincadeirinha, que nem uma novela… só que essa daqui já terminou… e terminou mal.”

FIM

26/04/06

Grande Filme

Júlia Silva, 41 anos de idade, divorciada, mãe de uma filha, engenheira (não a filha, a Júlia).

Júlia foi ao cinema, para evitar uma coisa que ela detesta; as grandes confusões, ela resolveu ir à noite, numa quarta-feira, depois do jantar.
Assim que entrou na cinema, Júlia deu um enorme suspiro de alívio porque a sala estava praticamente vazia, as únicas pessoas que lá estavam dentro eram; um casal de jovens, sentados na primeira fila, e mais outras duas pessoas, uma sentada no extremo direito da sala e a outra no lado oposto.
Júlia subiu os degraus até à última fila, aquela que está mais distante do ecrã, e sentou-se na cadeira mais centrada em relação à sala possível, alguns instantes depois as luzes apagaram-se quase por completo, o filme estava prestes a começar.
Entretanto, um homem entrou, à pressa, na sala.
Como sempre, Júlia começou a fazer os exercícios mentais que sempre faz quando vê um filme, basicamente ela tenta convencer o cérebro que tudo aquilo que vai ver é real, à custa desta técnica ela já teve alguns problemas, nomeadamente uma vez atirou com o pacote de pipocas contra o ecrã quando o “mau da fita” deu um estalo ao “herói”.
Estava Júlia na fase final de concentração, quando o último tipo que tinha entrado na sala foi ter com ela.

- Desculpe, esse lugar é meu. – disse o sujeito.
- Boa noite. – respondeu a Júlia.
- A senhora não ouviu o que eu disse?
- Desculpe lá, estava a concentrar-me para ver o filme, precisa de ajuda?
- Sim, preciso que a senhora saia desse lugar.
- Como?!
- Esse lugar… é meu.
- É seu?!
- Sim, é meu. Está aqui no meu bilhete… fila A, lugar 13… vê?
- Ah, já percebi!
- Óptimo, agora importa-se? O filme já começou.
- Pode parar, eu já descobri que isto é para os apanhados… onde estão as câmaras?
- Quais câmaras?! A senhora está a gozar comigo?
- Calma aí… o senhor está a falar a sério?
- Claro que estou a falar a sério, a senhora vai demorar muito tempo a sair do meu lugar?
- Isto só a mim… vim eu ao cinema a esta hora, para não ter chatices, e aparece-me este…
- Como é?!
- Caro senhor, repare numa coisa muito simples: esta sala deve de ter umas 300 cadeiras, estão cá dentro 5 pessoas, sobram 295, porque raio é que não escolhe uma delas?
- Acha que me vou sentar no lugar de outra pessoa?
- Mas as cadeiras estão vazias, senhor, e de certeza que não vai entrar mais ninguém agora.
- Como pode ter tanta certeza disso? Além de tudo, eu sou uma pessoa que respeita os outros.
- Eu só gostava de saber qual é o mal de se sentar noutra cadeira, palavra de honra.
- Eu não vou insistir mais, se a senhora não sai, eu vou ter de ir chamar um funcionário.
- Isso, vá… vá e não volte.
- Grande cabra. – sussurrou o tipo enquanto saía da sala.
- Vocês acreditam neste palhaço? Com uma sala quase vazia, o tipo insiste em querer sentar-se no lugar marcado no bilhete. – disse a Júlia para as pessoas que estavam na sala.
- Ouça lá. – disse o homem do casal, que estava sentado na primeira fila. – Qual é o seu problema? Nós também estamos sentados no lugar marcado, porque é que acha que estamos sentados nestes lugares de merda? Daqui para conseguir ler as legendas tenho de olhar de um lado para o outro, como se estivesse numa partida de ténis.
- Mas ainda pior estou eu, estar encostado a esta parede não é nada agradável, acreditem. – queixou-se um dos tipos que estava sentado num dos cantos da sala.
- Idem, idem, eu aqui, deste ângulo, apenas consigo ver metade do ecrã. – disse o outro tipo, do outro lado da sala.
- Valha-me Deus! Mas se a sala estava vazia, porque é que vocês não escolheram um lugar melhor? – perguntou a Júlia.
- Porque este é o nosso lugar! – responderam todos em uníssono.
- Homens… - suspirou a Júlia, com um ar enfadonho. – A menina, ai em baixo, não tem nada para dizer? – perguntou ela, à mulher do casal, que estava sentado na primeira fila.

A mulher manteve-se em silêncio, nem sequer se virou para a Júlia.

- Fantástico, a união feminina nunca falha. Parece que estou sozinha nesta luta. – disse a Júlia.

Entretanto chegou o tipo que tinha saído da sala, um funcionário veio com ele, os dois foram ter com a Júlia.

- É esta, é esta a senhora que lhe falei. – disse o tipo, ao apontar para a Júlia.

O funcionário olhou para a Júlia, a Júlia olhou para o funcionário.

- Tu?! – questionaram-se os dois, ao mesmo tempo.
- Estou a ver que continuas a mesma casmurra, não é? – disse o funcionário, virado para a Júlia.
- E eu estou a ver que continuas o mesmo fracassado, não é? – respondeu-lhe ela.
- Só faltava esta… vocês conhecem-se? – perguntou o tipo que tinha ido chamar o funcionário.
- Infelizmente. – responderam ao mesmo tempo o funcionário e a Júlia.
- Tive o desprazer de estar casado, em tempos, com esta senhora. – disse o funcionário.
- Coitado… pela amostra, não deve de ter sido nada fácil viver com esta senhora…
- Alto lá. – interrompeu Júlia, olhando com ar de poucos amigos para o sujeito. – Como se atreve a fazer esse tipo de comentários, por acaso você sabe o que se passou entre nós os dois? Se não sabe eu conto-lhe. Este palhaço abandonou-me, a mim e à nossa filha, deixou-nos assim, sem mais nem menos. Dizia ele que ia em busca da felicidade perdida.
- Júlia…
- Ele passava os dias sentado no sofá, a olhar para a televisão. Só dizia que era um artista, um actor nato… vendo bem as coisas agora, Francisco, tenho de te dar algum crédito, sempre conseguiste entrar para o mundo da sétima arte, só que em vez de ser como actor, foi como funcionário de uma sala de cinema, nada mau… parabéns! – disse a Júlia.
- Olha… ao menos… ao menos eu esforcei-me, tentei encontrar um trabalho de que realmente gostasse, não queria ser como tu e passar a vida a fazer uma coisa que não gosto… a propósito, ainda continuas a trabalhar naquele emprego que tanto detestas? – perguntou o Francisco.
- Sim, meu grande anormal, e foi graças a esse emprego que viveste às minhas custas durante aqueles anos todos em não fizeste absolutamente nada.
- Continuas na mesma… olha, no meio de tudo isto só tenho pena que a minha filha tenha ficado contigo, com a tua influência nem sei o que vai ser da minha querida filha.
- Grande lata, tu nunca te preocupaste com ela… e já agora, fica descansado, é graças à minha influência que a Joana está agora a estudar na casa da Maria.

O homem que foi chamar o funcionário (Francisco), agarra-lhe pelo braço e os dois afastam-se um pouco da Júlia, de modo a que ela não ouvisse.

- Ouça lá, vocês vão ficar a noite toda nisto? Eu ainda queria ver o resto do filme.
- Olhe… como é que você se chama?
- Artur.
- Olhe, Artur, você já viu como ela é, e…
- Eu não tenho nada com isso, eu só quero sentar-me no meu lugar.
- Artur… porque é que não se senta noutro lugar, só por agora… eu depois até lhe arranjo outro bilhete.
- Nem pensar, a razão está comigo. Ela não se vai ficar a rir, não senhor. Veja se faz alguma coisa.
- O que quer que eu faça?!
- Qualquer coisa, olhe, peça-lhe o bilhete, assim ela vai ver que está no lugar errado.
- Bom… vamos lá, mas aviso-lhe que não vai ser fácil.

Os dois aproximam-se da Júlia.

- Júlia tens aí o teu bilhete? Preciso de o ver. – disse o Francisco.
- O meu bilhete, para quê?
- Porque preciso de o ver, é o meu trabalho.
- Ai sim? Então vais ter de pedir o bilhete às outras pessoas que aqui estão.
- Ok… eu vou depois.
- Não. Primeiro vai pedir o bilhete dos outros, depois eu mostro o meu.
- A senhora realmente é uma… - disse o Artur furioso.
- Sou uma quê? Atreva-se.
- Calma… calma. Eu vou pedir os bilhetes às outras pessoas.

O Francisco foi primeiro pedir os bilhetes aos dois tipos que estavam sentados nos cantos da sala, depois aproximou-se do casal que estava sentado na primeira fila, viu o bilhete do homem, e quando olhou para a mulher do casal…

- Tu?! – disse o Francisco surpreendido.
- Eu posso explicar. – disse ela.
- Tu conheces este tipo, Joana? – perguntou o homem do casal.
- Este tipo, é o pai dela. E você quem é? – disse o Francisco, visivelmente irritado.
- Ah… Olá, como está? – respondeu simpaticamente o homem, esticando o braço para cumprimentar o Francisco. - O meu nome é João, eu…
- Ouça lá, você sabe que a minha filha só tem 15 anos? – perguntou o Francisco, ignorando o gesto do João, que aparentava ter uns 27 anos.
- 18, pai. Tenho 18. – disse a Joana.
- Mas tu disseste-me que tinhas 22. – disse admirado o João.
- 20, João. Eu disse que tinha 20. – respondeu a Joana calmamente.

“Eu considero-me uma pessoa, além disso, considero-me uma pessoa com já alguma experiência em escrever histórias.
Recordo-me, para meu próprio beneficio, de saídas e soluções verdadeiramente inesperadas, mesmo quando as coisas pareciam ter ido dar a um beco sem saída, eu, após alguns momentos de “transe”, encontrava sempre uma maneira de dar a volta às coisas… aquela imagem do tipo a assaltar um Banco com uma banana (Dinheiro & Bananas) foi, e é, um bom exemplo disso mesmo.
Pois bem, por muito que me custe a admitir, e custa-me realmente muito admitir, a verdade, a crua e fria verdade, é que fui vencido, fui atirado ao tapete sem dó nem piedade.
O acima referido pode parecer mau, mas a parte pior ainda está para vir, sim, porque um mal nunca vem só.
Eu até considerava normal ter sido vencido por um daqueles gigantes da luta-livre, ou até, derrotado por um grupo de velhinhas furiosas, mas ser vencido e derrotado por uma miúda? Uma miúda de 18 anos? Uma miúda de 18 anos, que mente? Uma miúda de 18 anos, que mente, e que permanece calma? Que destino mais cruel pode um homem esperar para si mesmo?
Meditei, quase sempre em horário laboral, durante longas horas para tentar encontrar uma forma de vencer esta miúda, mas tudo foi em vão.
“Tudo foi em vão…”, depois de dizer, e escrever isto, acabo de ter uma ideia que talvez resulte, talvez eu ainda tenha aquele “je ne sais quois”, sim… é isso! Aquela miúda vai ver uma coisa… mas… onde estão todos?! Bolas, a sala já está vazia.
Bem, já que aqui estou, vou aproveitar e fico para a próxima sessão."

Estava eu sentado, precisamente na última fila, quando uma mulher se aproximou de mim.
- Desculpe, esse lugar é meu. - disse ela...

FIM

16/03/06

Bú, O Ursinho

Era uma vez um urso, um ursinho na realidade.
Ele vivia com os pais numa linda floresta perto de um grande rio, o ursinho gostava muito desse rio porque era lá que ele ia pescar a sua comida preferida: salmões.
Bú, assim se chamava esse ursinho, também gostava de comer muitas outras coisas deliciosas como por exemplo amoras e mel, mas sem sombra de dúvidas que a sua comida predilecta no mundo inteiro eram os salmões.
Bú parecia ser um ursinho feliz, ele tinha uma família que gostava muito dele e tinha dois grandes amigos: um esquilo chamado Pintas e um porco selvagem chamado Piano, apesar disso, Bú não era inteiramente feliz, faltava-lhe qualquer coisa, principalmente faltava-lhe coragem para dizer à ursinha Flor que ele gostava dela.
Bú quando estava com os amigos Pintas e Piano era muito alegre e confiante mas quando estava com outros animais que não conhecia tão bem, ficava sempre muito inseguro e calado, tudo isto acontecia porque Bú tinha um pequeno problema, ele era gago.
Ele sentia tanta vergonha por ser o único urso gago na floresta inteira que um dia, quando a ursinha Flor lhe perguntou se ele queria brincar com ela, Bú teve tanto medo de começar a gaguejar que acabou por não dizer nada, Flor ficou muito triste nesse dia porque pensou que o Bú não queria brincar com ela.
Pobre Bú, ele bem que gostava de dizer à Flor que sim, que queria brincar com ela e que ela era muito bonita mas o ursinho teve receio que Flor fizesse como alguns colegas da sua escola e se começasse a rir dele…só por ser gago.
Numa certa tarde de Verão, Bú encontrou-se, como era hábito, com o esquilo Pintas e o porco Piano, debaixo da árvore mais alta da floresta.

- Então malta, o que vamos fazer, hein? Digam lá, o que vamos fazer? – perguntou o sempre irrequieto e cheio de energia Pintas.
- Pintas, está muito calor, é melhor ficarmos aqui a tarde toda debaixo desta deliciosa sombra. – disse o gordinho e pachorrento porco Piano.
- Vá lá, vamos fazer alguma coisa. – insistiu o Pintas.
- Bú, diz ao Pintas para estar quieto, eu fico a suar só de o ver aos pulos. – disse o Piano.
- C-c-calma pessoal, deixem-me pensar n-n-numa coisa para fazermos. – disse o ursinho Bú a sorrir.
- Então, Bú… já pensaste, já? Onde vamos? – perguntou o Pintas, enquanto andava à volta do porquinho Piano.
- Pintas, pára com isso, já estou a ficar tonto. – disse o Piano.
- Já sei! Que tal irmos dar um m-m-mergulho no rio? A água deve de estar d-d-d-deliciosa. – sugeriu o ursinho.
- Boa! É isso! Vamos lá. – disse o Pintas entusiasmado.
- Nem pensar, o rio é muito perigoso, além disso está muito calor para andar, eu não saio daqui. – protestou o Piano.
- P-p-podemos nadar na parte baixa do rio, ali não há p-p-problema, que tal? – disse o Bú.
- Não, eu não saio mesmo daqui. – afirmou o Piano.
- Olha, então vais ficar aqui a tarde toda sozinho, sem ninguém para falar nem brincar, vamos Bú? - respondeu o esquilo Pintas enquanto piscava o olho.

O ursinho Bú e o esquilo Pintas começaram a andar em direcção ao rio.

- Ei, malta! Esperem lá por mim, também vou, não quero ficar aqui sozinho… mas por favor, andem devagar, está bem? - disse conformadamente o porco Piano.

Piano juntou-se aos amigos e os três foram tomar um refrescante banho no rio.
Eles estavam entretidos a brincar na água quando de repente…

- E-e-esperem! Vocês não ouviram nada? – perguntou o Bú.
- Não, eu não ouvi nada… acho que tu deves ter ouvido o estômago aqui do Piano a dar horas… eh,eh,eh. – disse com ar de troça o esquilo Pintas.
- Que engraçadinho que tu és, Pintas. Vê lá se te caem os dentinhos. – respondeu zangado o porco Piano.
- Anima-te, amigo… eu estava a brincar contigo mas olha que já começo a sentir fome e que tal se nós…
- SOCORRO! – grita alguém, interrompendo o Pintas.
- Estão a ouvir? Eu tinha razão, alguém está em apuros… vamos. – disse o ursinho Bú.

Os três amigos saíram da água e correram rapidamente na direcção daquele pedido de ajuda… bem, o porco Piano teve algumas dificuldades em acompanhar os amigos mas a verdade é que ele se esforçou ao máximo.
O esquilo Pintas como era o mais leve e rápido foi o primeiro a ver o motivo daqueles gritos de socorro.

- Malta, malta… olhem ali, dentro do rio… é o Jeremias.

O ursinho Jeremias é o irmão mais velho da Flor, ele é colega de escola dos nossos amigos.

- Ele corre p-p-perigo! Porque é que ele veio nadar para a parte p-p-perigosa do rio?
Se ele largar aquela r-r-rocha a corrente vai arrastá-lo até à q-q-queda d’água.- disse o Bú.

Enquanto Jeremias continuava a pedir ajuda, o porco Piano chegou finalmente perto dos amigos.

- Aquele ali não é o Jeremias? … puff… puff… - perguntou o Piano, ainda a tentar recuperar o fôlego.
- É ele mesmo, o tal que passa a vida a gozar com nosso amigo Bú só porque ele gagueja de vez em quando. – disse o esquilo.
- Pois, e esse Jeremias também gosta muito de me chamar nomes, só porque eu sou assim… cheiinho. – disse o porquinho Piano cruzando os braços.

O ursinho Bú virou-se para os amigos e disse:

- Agora não podemos pensar nessas coisas, o Jeremias está em a-a-apuros, nós temos de o ajudar.

O Pintas e o Piano concordaram, era preciso fazer alguma coisa para ajudar o Jeremias.
Depois de pensar durante algum tempo, Bú teve uma ideia.
Ele pediu ao esquilo Pintas para subir a uma árvore e trazer o galho mais comprido que encontrasse, depois, já com o galho numa das patinhas, Bú aproximou-se da margem do rio, pedindo depois ao porquinho Piano, que tinha muita força, para agarrar na sua outra patinha, Bú inclinou-se o mais que conseguiu, tentando assim chegar com o galho até onde estava o pobre Jeremias.

- Jeremias, tenta agarrar o galho, nós depois puxamos-te. – gritou o Bú.
- Cuidado, malta! Tenham cuidado. – disse o esquilo Pintas preocupado.

Felizmente o plano do Bú deu resultado. Jeremias conseguiu agarrar-se ao galho e depois foi só puxá-lo para fora do rio.

- Viva, viva, conseguimos! – gritou o Pintas aos pulos.

O ursinho Jeremias, todo molhado, agradeceu muito a ajuda e prometeu nunca mais fazer troça de ninguém.
Ele contou que caiu dentro do rio porque escorregou quando estava a brincar com um amigo muito perto da margem, e como esse amigo não sabia o que fazer foi a correr pedir ajuda aos adultos.

- O importante é que t-t-tudo está bem agora, não é pessoal? – disse com ar feliz o ursinho Bú.
- Claro, mas toda esta ginástica abriu-me imenso o apetite. – disse o porquinho Piano enquanto esfregava a barriguita.
Todos deram uma gargalhada.

Instantes depois apareceu, muito aflita, a família do ursinho Jeremias, ele tratou logo de acalmar todos dizendo que estava bem e que tinha sido salvo graças à coragem do Bú.

- O-o-ora, não foi nada, sem a ajuda dos meus amigos Pintas e Piano eu não teria conseguido f-f-fazer nada. – disse o Bú com ar envergonhado.

Todos estavam felizes e aos poucos começaram a regressar às suas casinhas, o ursinho Bú ficou sozinho a olhar para o pôr-do-sol.

- Bú? – disse a ursinha Flor ao aproximar-se dele. – Queria agradecer-te por teres salvo o meu irmão, foste muito, muito corajoso, obrigado. – disse ela.
O ursinho, com medo de começar a gaguejar muito não disse nada, apenas sorriu.
Flor sorriu-lhe e depois virou-se para ir para casa.

- F-F-Flor. – disse timidamente o ursinho. – Posso te a-a-a-a-acompanhar até c-c-casa? – perguntou ele.
- Claro! – respondeu a ursinha Flor a sorrir.

Os dois ursinhos deram as patinhas e caminharam juntos na direcção do pôr-do-sol.
Muitos anos mais tarde o Bú e a Flor casaram um com o outro, tiveram lindos filhotes e foram felizes para s-s-sempre.

FIM

27/12/05

O Código Dá Vinte

Eram exactamente vinte horas quando ela entrou no meu gabinete como se fosse um TGV Lisboa – Porto.
Ela apanhou-me completamente desprevenido, nem tive tempo de acabar o que estava a fazer, de qualquer das formas achei melhor puxar as minhas calças para cima.
A estonteante mulher estava visivelmente assustada, pedi-lhe para que tivesse calma e para que tentasse respirar pausadamente, isso fez com que a minha atenção se centrasse nos seus voluptuosos seios, parecia que eles queriam sair para fora da extremamente justa blusa… fiquei logo com a impressão de já ter visto aquele par de perfeição em algum lugar.
Quando ela se sentou e cruzou as pernas, constatei que para além de uma linda mini-saia, ela tinha também umas pernas que me eram claramente familiares, definitivamente eu já tinha visto aquele corpo antes, mas onde… onde?
A resposta bateu-me na cabeça como um taco de basebol: ela era Martina Del Swartzcoff, vinte anos de idade e a única mulher a ser eleita dois anos seguidos como Miss Outubro… Meu Deus, como me lembro bem daqueles meses.
As duas semanas consecutivas a trabalhar como detective privado granjearam-me o know-how essencial para chegar à conclusão que diante dos meus olhos estava uma mulher em apuros.
Ela tirou da bolsa um cigarro, quando o dito roçou aquelas duas almofadas de seda, que eram os seus lábios, já eu estava com o fósforo aceso e pronto para lhe dar lume… ao cigarro.
Pedi para que ela me contasse o que se passava e sentei-me em cima da secretária para melhor a ouvir, e também porque daquele ângulo superior eu tinha uma visão privilegiada da razão… das duas razões porque Martina havia sido eleita Miss Outubro.
Foi por entre algumas passas que ela me assegurou estar a ser perseguida, isso porque ela sabia de um segredo… um segredo terrível.
Levantei-me e passei por trás dela, isto sem qualquer intenção de apreciar o seu esplendoroso traseiro (continuava lindo), assim que me aproximei da janela alguma coisa fez com o vidro se partisse.
Martina assustou-se e imediatamente correu para os meus braços, eu nem queria acreditar, a Miss Outubro estava nos meus braços… e desta vez em carne e osso.
Fosse eu um reles verme e tinha-me aproveitado sem dúvida daquele angelical ser, mas como poderia eu ter a ousadia de me aproveitar de uma pessoa assim tão bela e incrivelmente excitante?
Ainda por cima uma pessoa, que mesmo sem o saber, já tinha sido a fonte inspiradora de tantos e tão deliciosos momentos de prazer… não, eu seria incapaz de descer tão baixo.
Martina, ainda recolhida nos meus braços protectores, implorou para passar aquela noite em minha casa.
A doce criatura estava verdadeiramente assustada com tudo aquilo.
Acalmei-a dizendo-lhe que o vidro da janela poderia ter-se partido por causa de um pombo mais distraído, ou então teria sido um miúdo na brincadeira… um miúdo com a pontaria e força necessárias para partir o vidro de uma janela de um gabinete situado no vigésimo andar.
Acima de tudo assegurei-lhe que a bala encontrada no chão, perto do vidro partido, não significava, nem provava, absolutamente nada.
Martina ficou mais tranquila.
Claro, para ser sincero, eu bem que gostaria de a ter levado para casa comigo naquela noite, mas infelizmente a minha cabra é muito ciumenta, por isso resolvi chamar um táxi que a levasse a casa.
Quando ela entrou no carro pedi-lhe que voltasse no dia seguinte, ainda haviam muitas coisas por esclarecer, entretanto, e para que ela se sentisse mais segura, eu garanti-lhe que nada de mau lhe iria acontecer até lá.
Martina Del Swartzcoff foi assassinada!
Soube dessa tragédia no dia seguinte, depois de tirar à força, o jornal da boca da Maria, a minha cabra de estimação.
Fiquei perplexo com a notícia escancarada na primeira página: “Coelhinha Assassinada! Martina Del Swartzcoff, eleita duas vezes Miss Outubro, foi ontem à noite assassinada com vinte tiros. Martina deslocava-se num táxi a caminho de casa quando subitamente, de dentro de um carro que a perseguia, alguém começou a disparar…”.
Pobre miúda, tão nova… enquanto lia, na minha cabeça começaram a ser formadas algumas perguntas que me inquietavam: quem teria feito aquilo, estaria Martina realmente a ser perseguida, qual o segredo que ela guardava e, talvez a dúvida que mais me preocupava, quem é que me iria pagar os vinte euros que Martina me ficou a dever pela consulta?
Peguei na minha gabardina e meti-me a caminho do lugar onde eu achava que iria encontrar algumas respostas: a Mansão Playboy.
Não foi difícil entrar, estes tipos adoram qualquer tipo de publicidade, principalmente a gratuita, por isso inventei um estranhíssimo sotaque irlandês e disse chamar-me Jack McCormack, jornalista em ascensão da revista “M'n'M’s”.
Mandaram-me sentar e esperar que me chamassem, por sorte o “Patrão” estava na Mansão e iria receber-me.
Enquanto eu esperava aproximaram-se de mim duas… deusas, palavras não fazem justiça suficiente à estonteante beleza de ambas, apenas posso garantir que se elas não fossem de raças diferentes seriam gémeas.
As duas estavam vestidas com uma espécie de uniforme lá do sítio: jeans extra-justos e top preto com o logótipo da Playboy estampado a dourado.
Assim que a mulata olhou para mim eu soube imediatamente que algo mágico iria acontecer ali, levantei-me, contudo ela fez sinal para eu permanecer sentado, obedeci.
Ela virou-me as costas e fez mais um sinal, desta vez destinado à amiga ruiva que se aproximou.
As duas ficaram cara a cara, literalmente.
A ruiva passou o rosto pelos cabelos ondulados da amiga, eu nem pestanejava.
Subitamente a mulata deu meia volta e ficou de costas voltadas para a amiga, eu continuava sem pestanejar.
A “coelhinha” ruiva começou a deslizar as mãos pela cintura da colega enquanto lhe beijava o pescoço, a mulata invadida pelo prazer mordeu os lábios, eu pestanejei, naquela fracção de segundo, já a mulata estava novamente virada para a ruiva, elas beijaram-se.
Aquilo era como se eu estivesse a ver o Canal Playboy, com a vantagem de eu estar lá… não resisti à tentação, levantei-me.
Assim que me aproximei delas, cada uma agarrou-me num braço e levaram-me; mesmo sem saber para onde ia pus o mais estúpido sorriso que alguma vez tinha usado.
Entrámos numa sala e o meu sorriso foi à vida, diante dos meus olhos estava, nem mais nem menos, que o “Imperador” em pessoa: Hugh Hefner, fundador do império Playboy.
Fiz as minhas contas: eu, duas miúdas e um velho pervertido… disse imediatamente que não alinhava em cenas maradas.
Hefner soltou uma sonora gargalhada e convidou-me a sentar; enquanto eu me sentava reparei que naquela sala, para além da secretária onde Hefner estava sentado, as paredes estavam cheias de fotografias, quase em tamanho real, das mais famosas “playmates”, no entanto não vi nenhuma fotografia da Martina, logo ela que tinha sido a única a ser eleita duas vezes seguidas Miss Outubro…porque teria sido ela excluída?
A rapariga mulata e a amiga ruiva colocaram-se ao lado do velho Hefner, que continuava a falar como um papagaio sobre a história daquela empresa; talvez tenha sido impressão minha, ou então estaria ainda meio atordoado por causa do espectáculo das miúdas, mas pareceu-me que os dentes incisivos superiores de Hefner eram anormalmente grandes… quase como dentes de coelho.
Passados poucos minutos a porta da sala abriu-se, entraram dois tipos enormes, parecidos com lutadores de luta-livre, cheguei à conclusão que eles eram funcionários porque estavam vestidos exactamente da mesma maneira que as miúdas… isso deixou-me preocupado.
Ainda mais preocupado fiquei quando um deles sussurrou qualquer coisa no ouvido de Hefner… algo me dizia que eu estava em apuros.
Com um simples estalar de dedos Hefner mandou as miúdas sair da sala, não tive dúvidas, o meu disfarce tinha sido descoberto.
Levantei-me e tentei sair de fininho mas isso não passou mesmo de uma tentativa, os dois tipos enormes, ainda que ridiculamente vestidos, eram bem mais fortes que eu, por isso voltei a sentar-me quando eles se puseram ao meu lado.
O velho Hefner levantou-se e veio ter comigo, perguntou-me porque é que eu tinha mentido dizendo que era um jornalista, pensei rápido e respondi que aquela foi a única forma que eu encontrei de falar com ele por causa da Martina, Hefner ficou branco, era óbvio que aquele não era um tema bem vindo.
Hefner queria saber se Martina me tinha falado no Código, aliviei a tensão dizendo que eu apenas pretendia receber os vinte euros que ela me tinha ficado a dever, Hefner deu uma gargalhada.
Ele engoliu a história, pagou-me e eu saí dali para fora mesmo a tempo, ou não fosse o meu nome Justin Time.
Cheguei a casa e fui tomar um duche.
Qualquer pessoa de bom-senso iria esquecer o que se tinha passado mas não eu, achei que deveria fazer alguma coisa, qualquer coisa, era mais que evidente que Hefner estava envolvido na morte da Martina, sem dúvida ela sabia demais e foi preciso silenciá-la... mas que raio seria o Código?
Felizmente tenho uma boa memória, recordei todos os passos que dei até então e cheguei à seguinte conclusão: o Código dá Vinte.
Talvez para algumas pessoas os factos que vou descriminar não passem de simples coincidências, mas para mim eles são a prova irrefutável que o Código dá Vinte.
Eis as provas:

Martina entrou no meu gabinete às VINTE horas.
O nome Martina Del Swartzcoff tem exactamente VINTE letras.
Martina tinha VINTE anos.
Martina foi eleita Miss Outubro (mês 10), duas vezes seguidas, logo 10+10=VINTE.
O meu gabinete fica no VIGÉSIMO andar.
Martina foi assassinada com VINTE tiros.
Martina ficou a dever-me VINTE euros.
O nome Hugh Hefner tem 10 letras, 10 letras x 2 nomes = VINTE.
Hefner nasceu em 9/4/1926, significa que 26 - 19 (ano) = 7 ... 7 + 9 (dia) = 16 ... 16 + 4 (mês) = VINTE.

Mas o que significa o Vinte, e que relação tem Hefner com esse número?
Fiz mais algumas pesquisas por minha conta, que incluíram a compra massiva de revistas Playboy, e mais uma vez o resultado final foi surpreendente.
Hugh Hefner nasceu em Chigaco, Illinois, essa constatação é do conhecimento público, o que poucas pessoas sabem é que ele descende directamente dos primeiros nativos que habitaram aquela região, os Potawatomis.
Um ramo familiar dessa tribo, aquele a que Hefner pertence, nasceu com graves deformações físicas: orelhas enormes, corpo inteiro coberto de pêlo, dentes incisivos superiores gigantescos; foi-lhes dado o nome de Plabo (este nome viria a dar origem à palavra Playboy), que significa no dialecto dos Potawatomis “homem-coelho”.
Ao longo de gerações os Plabo foram votados ao ostracismo pelos outros ramos familiares descendentes dos Potawatomis, foram inclusivamente expulsos daquela região, mudando-se mais para Norte.
Vingança mortal foi jurada.
Existem hoje em dia milhões de Plabo’s espalhados pelo Mundo, a sua existência é contudo difícil de provar, uma vez que eles vivem escondidos da sociedade, ou então, aqueles que realmente são visíveis sujeitaram-se a grandes intervenções cirúrgicas para conseguirem passar por pessoas ditas “normais”, Hugh Hefner é um deles.
Ele é inclusivamente o Alto Comandante da PSIHC – Plabo, Sociedade Independente de Homens-Coelho – durante anos Hefner usou e continua a usar a sua revista Playboy para fazer passar mensagens ocultas através dela, o que para o comum dos mortais são simples mas belas fotografias de mulheres nuas, para os Plabo’s são orientações militares com vista ao ataque… e é aqui que entra finalmente o Vinte.
O ataque final dos Plabo’s, aquele que vai dizimar a população mundial por completo, já tem data marcada, será no ano 2020.
Em conclusão lanço um apelo, um apelo ao Mundo, ninguém está excluído: temos de impedir que as loucas intenções dos Plabo’s se tornem em realidade.
O que sugiro é uma coisa difícil de concretizar, aliás, muitíssimo difícil, mas é a nossa única hipótese: vamos eliminar a forma de contacto entre os Plabo’s, para isso o sacrifício supremo tem de ser activado: temos de deixar de comprar revistas Playboy, bem sei o sofrimento e dor que isso implica mas tem de ser, a salvação do Mundo está nas nossas mãos.

Fim

nota para mim mesmo: se esta treta não vender com gajas nuas, pensar numa alternativa, talvez substituir as fotografias por quadros de pintores famosos como Picasso… ou melhor, como Da Vinci, o título até podia ser “O Código Da Vinci”… talvez meter a Igreja no meio. É esticar muito a corda mas pode ser que alguém engula isso…

D.Brown

FIM